Há frases que, pela sua singeleza, encerram uma verdade profunda e quase imutável. Uma delas, frequentemente atribuída a Mark Twain, pseudónimo literário de Samuel Langhorne Clemens, escritor, humorista, conferencista e um dos mais penetrantes observadores da natureza humana na literatura norte-americana, afirma: "The more I learn about people, the more I like my dog." Em português, poder-se-á traduzir por: "Quanto mais aprendo sobre as pessoas, mais gosto do meu cão."
É pensamento que subscrevo profusamente, não por desalento, nem por misantropia, mas por experiência, observação e lucidez. Mark Twain, conhecido pelo seu espírito mordaz, pela sua ironia fina e pela sua capacidade de expor, com humor e severidade, as contradições do comportamento humano, compreendeu como poucos que a inteligência do homem nem sempre se faz acompanhar de carácter, gratidão ou lealdade.
Não se trata de negar a dignidade da condição humana, nem de ignorar que existem homens e mulheres de honra, de carácter e de probidade, cuja existência continua a enobrecer a sociedade. Trata-se, isso sim, de reconhecer uma realidade que a vida, com o decorrer dos anos, se encarrega de revelar: o ser humano, demasiadas vezes, deixa-se conduzir pelo interesse, pela conveniência, pela inveja, pela ingratidão e pela traição.
O cão, pelo contrário, desconhece a duplicidade. Não sorri pela frente para ferir pelas costas. Não calcula benefícios, não mede afectos segundo a utilidade de quem os recebe, não abandona por conveniência, nem se aproxima por ambição. O cão ama com uma pureza que o homem, em muitos casos, há muito esqueceu.
Num mundo cada vez mais dominado pela aparência, pela falsidade social e pela facilidade com que tantos trocam princípios por vantagens transitórias, a lealdade de um cão assume quase a natureza de lição moral. Ele permanece. Ele espera. Ele protege. Ele acompanha. E, sobretudo, não exige mais do que aquilo que oferece: presença, carinho, respeito e fidelidade.
Há nos cães uma nobreza silenciosa que muitos seres humanos jamais alcançarão. O cão não carece de discursos para demonstrar lealdade.
Demonstra-a todos os dias, no olhar atento, na alegria do reencontro, na vigilância discreta, na entrega absoluta. O seu afecto não é negociado. A sua amizade não é condicionada. A sua fidelidade não depende das circunstâncias.
Talvez por isso tantas pessoas, depois de conhecerem bem a natureza humana, encontrem nos seus cães uma forma mais pura e mais verdadeira de companhia. Não porque os cães substituam as pessoas, mas porque nos recordam aquilo que as pessoas deveriam esforçar-se por ser: leais, gratas, constantes e verdadeiras.
A civilização moderna fala muito de progresso, mas esquece frequentemente as virtudes elementares. Fala de direitos, mas esquece deveres. Fala de liberdade, mas esquece responsabilidade. Fala de relações humanas, mas consente que estas sejam, tantas vezes, marcadas pela superficialidade, pelo oportunismo e pela ausência de palavra.
O cão, na sua simplicidade, permanece alheio a tudo isso. Não necessita de teorias para ser fiel. Não precisa de discursos para demonstrar afecto. Não tem necessidade de prometer aquilo que não tenciona cumprir. Simplesmente é. E, sendo, ensina.
É por essa razão que, para mim, amar os cães é também reconhecer uma forma superior de lealdade. É admirar a disciplina sem arrogância, a coragem sem vaidade, a ternura sem interesse e a presença sem cálculo.
Quanto mais conheço certas pessoas, mais compreendo o valor dos meus cães. Não por amargura, mas por lucidez.
Porque a vida nos ensina que a lealdade verdadeira é rara, a gratidão cada vez mais escassa, e a pureza de carácter uma virtude que já não se encontra com facilidade.
No fim, talvez seja esta a grande lição: o homem, com toda a sua inteligência, ainda tem muito a aprender com o cão.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores