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Tendo nascido nos Açores, mais precisamente na ilha do Pico, entendo ser oportuno dedicar este artigo de opinião à beleza singular do arquipélago açoriano, não apenas na qualidade de quem descreve uma paisagem, mas, sobretudo, como quem presta tributo sincero à terra onde teve início a sua própria história.

César DePaço

Há lugares que se visitam; há outros que se contemplam; e há, finalmente, aqueles que permanecem em nós como expressão íntima de pertença, memória e identidade. Os Açores pertencem, indiscutivelmente, a esta última categoria. Situados no coração do Atlântico, entre a vastidão solene do mar e a serenidade luminosa do céu, constituem uma das mais belas e autênticas manifestações da natureza portuguesa.

 

A beleza dos Açores não é uma beleza artificial, fabricada para satisfazer o olhar apressado do turismo hodierno.

 

É, antes, uma beleza antiga, profunda e quase sagrada, feita de silêncio, de verde, de neblina, de pedra vulcânica, de hortênsias, de pastagens, de mar e de uma forma muito própria de estar no mundo. Cada ilha possui carácter próprio, fisionomia distinta e alma singular; todas, porém, partilham a mesma essência atlântica, vigorosa, discreta e profundamente portuguesa.

São Miguel encanta pela imponência das suas lagoas, pela majestade das Sete Cidades, pela serenidade da Lagoa do Fogo e pela força telúrica das Furnas. É a ilha onde a natureza parece revelar, com particular intensidade, a sua abundância e a sua força criadora. As suas águas termais, os campos verdejantes, os miradouros sobre o oceano, as plantações de chá, os ananases cultivados com paciência e a imponência das suas paisagens fazem de São Miguel uma síntese grandiosa do mundo açoriano. Ali, a terra ainda respira, a água brota quente das profundezas, e a natureza parece recordar ao homem que ele é apenas hóspede passageiro de uma criação infinitamente superior à sua vontade.

Santa Maria, mais luminosa e solarenga, possui uma graça própria, distinta das restantes ilhas. As suas encostas mais suaves, as suas praias claras, a Baía de São Lourenço, a Praia Formosa e o contraste entre o azul do mar e a claridade da terra conferem-lhe uma singularidade quase mediterrânica no seio do Atlântico. É uma ilha de luz, de serenidade e de recolhimento, onde a beleza se apresenta com menor dramatismo, mas com igual nobreza.

A Terceira guarda a nobreza da história, das festas, da hospitalidade e da tradição. Angra do Heroísmo, com o seu património, a sua dignidade arquitectónica e a sua memória histórica, lembra-nos que os Açores foram, também, ponto de encontro de navegadores, de interesses estratégicos e de afirmação portuguesa no Atlântico. A Terceira é igualmente terra de alegria popular, de impérios do Espírito Santo, de convívio comunitário e de tradições profundamente enraizadas. Entre elas avultam as touradas à corda, expressão característica da vivacidade terceirense, nas quais se cruzam coragem, festa, disciplina popular e sentido comunitário. Gostem uns mais, outros menos, ninguém poderá negar que esta tradição faz parte da identidade cultural daquela ilha e da sua maneira muito própria de celebrar a vida, a rua e a comunidade.

A Graciosa, de nome justamente merecido, apresenta-se com discrição, elegância e mansidão. É uma ilha de suavidade, de vinhas, de moinhos, de campos bem tratados e de uma tranquilidade que parece resistir à agitação dos tempos presentes. A sua paisagem não procura impressionar pela violência do relevo, mas pela harmonia das proporções. A Furna do Enxofre, os seus campos agrícolas e a simplicidade da sua vida insular dão-lhe uma beleza serena, quase doméstica, como se ali a natureza tivesse preferido a delicadeza à ostentação.

São Jorge oferece falésias grandiosas e fajãs que parecem desenhadas por uma mão paciente e perfeita. É uma ilha comprida, austera e majestosa, onde a verticalidade da terra se encontra com a profundidade do mar. As suas fajãs, umas mais acessíveis, outras quase secretas, são pequenos mundos de resistência humana e beleza natural. São Jorge é também terra de trabalho, de pastagens, de gado, de queijo afamado e de uma relação íntima entre o homem e a encosta. Ali, a vida parece ensinar que a beleza exige esforço, paciência e adaptação à dureza da geografia.

O Pico, com a sua montanha altiva, ergue-se como monumento natural à perseverança. A mais alta montanha de Portugal não é somente um acidente geográfico; é um símbolo. Representa a firmeza do carácter açoriano, a capacidade de resistir, de subir, de vencer a inclinação áspera da vida e de permanecer de pé perante o vento, o isolamento e o destino. Mas o Pico é também a vinha nascida da pedra negra, os currais de lava, a memória baleeira, o mar profundo, os homens de trabalho rude e a dignidade das comunidades que aprenderam a arrancar beleza e sustento a uma terra exigente. Quem nasceu à sombra daquela montanha compreende que o Pico não se limita a dominar a paisagem; ele educa o espírito, tempera a vontade e ensina a grandeza silenciosa da resistência.

O Faial, com a sua baía, a sua marina e a memória dos navegadores, conserva a poesia das partidas e dos regressos. A cidade da Horta, aberta ao mundo pelo seu porto, guarda histórias de marinheiros, de travessias, de esperas e de reencontros. O Vulcão dos Capelinhos, por sua vez, recorda-nos que a natureza açoriana é bela, mas também poderosa, imprevisível e soberana. No Faial, o azul das hortênsias, o movimento dos barcos e a memória da terra nova criada pelo fogo compõem uma paisagem de grande força espiritual.

As Flores, mais distantes e silenciosas, preservam uma pureza quase intacta. É uma ilha de cascatas, ribeiras, lagoas, penhascos, vegetação luxuriante e uma beleza que parece anterior ao ruído do mundo contemporâneo. Nas Flores, a água cai das encostas como se a própria ilha respirasse em forma de vertente. Tudo ali convida à contemplação, ao silêncio e à humildade perante a grandeza da criação natural.

O Corvo, pequeno em dimensão, é imenso em significado. A sua escala reduzida não diminui a sua grandeza moral e simbólica. Pelo contrário, engrandece-a. O Corvo representa a resistência extrema da presença portuguesa no Atlântico, a vida comunitária levada ao seu grau mais puro, a simplicidade austera e a coragem de permanecer onde a distância poderia ter vencido o homem. O seu Caldeirão, de beleza singular, parece conter em si a memória silenciosa de uma ilha que, sendo pequena, possui alma vasta.

 

Mas a verdadeira grandeza dos Açores não reside apenas nas suas paisagens. Reside, igualmente, no seu povo.

 

O açoriano aprendeu, ao longo dos séculos, a viver entre o mar e a incerteza, entre a distância e a esperança, entre a abundância generosa da terra e a dureza das circunstâncias. Daí nasceu uma gente laboriosa, prudente, sóbria, ligada à família, à terra, aos animais, às tradições e à dignidade simples do trabalho honrado.

Os Açores são, também, uma lição de identidade nacional. Num tempo em que tantos parecem esquecer a importância das raízes, aquelas nove ilhas recordam-nos que Portugal não é apenas o continente europeu voltado para o Atlântico. Portugal é, igualmente, o arquipélago que resiste no meio do oceano, mantendo viva a língua, a cultura, a memória, os costumes e o sentimento de pertença a uma pátria comum.

Quem contempla os Açores compreende que a beleza verdadeira não necessita de excesso. Basta uma estrada ladeada de hortênsias, uma vaca tranquila numa pastagem verdejante, uma igreja branca diante do mar, uma lagoa adormecida sob a névoa, uma fajã protegida por falésias, uma vinha cercada por pedra negra, ou uma montanha erguida sobre o Atlântico, para que o espírito se sinta reconciliado com a ordem natural das coisas.

Os Açores são, por conseguinte, muito mais do que um destino turístico. São uma afirmação da beleza portuguesa em estado puro. São terra de encanto, de memória, de carácter e de pertença. São o testemunho vivo de que a natureza, quando não é violentada pela arrogância humana, continua a falar ao coração com uma autoridade que nenhuma modernidade consegue imitar. E talvez resida precisamente aí a maior beleza dos Açores: na sua capacidade de nos lembrarem que ainda existem lugares onde o tempo não venceu a alma, onde a paisagem conserva dignidade, onde o povo preserva carácter, e onde Portugal continua a olhar o Atlântico com a mesma coragem, a mesma saudade e a mesma esperança dos seus melhores séculos.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores