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Há países que se medem pela extensão do seu território, outros pela grandeza da sua população, outros ainda pela força transitória das suas riquezas. Portugal, porém, pertence a uma categoria mais rara: a dos países cuja influência histórica excede, de modo admirável, os limites da sua própria geografia.

César DePaço

Pequeno na aparência, Portugal foi, durante séculos, uma das grandes forças modeladoras do mundo moderno. Não o foi por acidente, nem por mera circunstância. Foi-o por vocação, por coragem, por ciência, por fé, por disciplina, e por uma extraordinária capacidade de olhar para além do horizonte imediato.

A epopeia portuguesa não pode, nem deve, ser reduzida a uma simples aventura marítima. Foi, acima de tudo, uma afirmação de génio nacional. Quando os portugueses se lançaram ao mar, não procuraram apenas novas rotas comerciais. Procuraram caminhos, aproximaram civilizações, estabeleceram pontes entre continentes e deram ao mundo uma nova consciência da sua própria dimensão.

Antes de Portugal, o mundo era, em grande medida, fragmentado. Existiam impérios, reinos, culturas, religiões e mercados, mas faltava uma verdadeira ligação universal entre eles. Com os Descobrimentos, Portugal contribuiu decisivamente para transformar o mundo conhecido num mundo comunicado. Da costa africana ao Índico, do Brasil ao Oriente, de Goa a Macau, de Timor a Angola e Moçambique, a presença portuguesa deixou marcas profundas na língua, na religião, na arquitectura, na gastronomia, no comércio, na diplomacia e na própria organização das sociedades.

A língua portuguesa constitui, talvez, uma das maiores provas desse impacto. Hoje, milhões de pessoas, espalhadas por vários continentes, exprimem afectos, pensamentos, leis, literatura, oração e comércio na língua de Camões. O português não é apenas um idioma europeu. É uma língua atlântica, africana, americana e asiática. É uma ponte espiritual e cultural que une povos distintos sob uma herança comum, sem que, por isso, necessariamente se apague a identidade própria de cada um.

Também no plano espiritual e cultural Portugal desempenhou um papel de assinalável relevo. A expansão portuguesa levou consigo missionários, escolas, igrejas, hospitais, formas de administração e instrumentos de contacto entre povos que, até então, viviam separados por oceanos e por desconhecimento mútuo.

 

Naturalmente, nenhuma obra humana está isenta de erros, excessos ou contradições. Seria intelectualmente desonesto negar as sombras da História. Mas seria igualmente injusto, e profundamente empobrecedor, reduzir a presença portuguesa no mundo às lentes ideológicas do presente, esquecendo a grandeza, a audácia e a permanência da sua contribuição civilizacional.

 

Portugal foi, em muitos aspectos, precursor daquilo a que hoje se chama globalização. Muito antes de outras potências modernas consolidarem os seus impérios, já os portugueses navegavam, comerciavam, traduziam, evangelizavam, negociavam e estabeleciam relações diplomáticas em lugares onde a Europa mal chegara. A cartografia, a náutica, a construção naval e o conhecimento dos ventos e das correntes foram instrumentos de uma inteligência nacional que colocou Portugal no centro da História universal.

Brasil, pela sua dimensão continental e pela sua vitalidade humana, é uma das maiores expressões dessa herança. Mas a influência portuguesa não se limita ao Brasil. Está em África, nas ilhas atlânticas, no Oriente, nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, na arquitectura, nos nomes das cidades, nos apelidos, nas tradições religiosas, nas cozinhas, nos costumes, e até em certos modos de estar perante a vida.

O génio português sempre teve uma característica particular: a capacidade de adaptação. Portugal raramente se limitou a impor. Muitas vezes sobreviveu e prosperou pela diplomacia, pela convivência, pela negociação, pela miscigenação cultural e pela extraordinária capacidade de se integrar sem desaparecer. Esse traço explica por que motivo a presença portuguesa, mesmo séculos depois, continua visível em tantos lugares.

Todavia, a grande pergunta que hoje se impõe é outra: saber se os portugueses contemporâneos têm plena consciência da herança que receberam. Um país que deu novos mundos ao mundo não pode resignar-se à pequenez mental, ao complexo de inferioridade ou à dependência cultural de modas passageiras. Portugal deve olhar para a sua História com orgulho sereno, sem arrogância, mas também sem a vergonha artificial que certas correntes procuram impor à memória nacional.

Amar Portugal não é negar os seus erros. É compreender a totalidade da sua obra. É reconhecer que uma nação de reduzida dimensão territorial conseguiu influenciar continentes, idiomas, religiões, rotas comerciais, culturas e povos. É perceber que a identidade portuguesa não nasceu do acaso, mas da coragem de homens que olharam para o mar não como uma fronteira, mas como um destino.

Num tempo em que tantas nações parecem esquecer quem são, Portugal deve recordar aquilo que foi, para melhor compreender aquilo que ainda pode ser.

 

A grandeza de um povo não reside apenas no poder económico do presente, mas na profundidade da sua alma histórica. E, nesse domínio, Portugal permanece uma das nações mais extraordinárias da humanidade.

 

Portugal não foi apenas um país que navegou pelo mundo. Foi um país que ajudou o mundo a descobrir-se a si próprio.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores