Para muitos portugueses que vivem no estrangeiro, regressar a Portugal significa, antes de mais, reencontrar a família. É voltar à casa dos avós, percorrer as ruas da infância e sentar-se à mesa com pessoas cuja ausência nenhum contacto à distância consegue verdadeiramente suprir. Conheço o valor desses reencontros. Creio, porém, que eles podem ser também o ponto de partida para uma descoberta mais ampla do país a que pertencemos.
Nasci na ilha do Pico e passei a infância em São Miguel. Durante esses anos, as férias de Verão levavam-me à Terceira, onde viviam os meus avós maternos, e ao Faial, onde viviam os meus avós paternos. Cada ilha me deixou recordações próprias e contribuiu, à sua maneira, para a formação da minha identidade.
Na Terceira nasceu o meu entusiasmo pelas touradas à corda. Recordo a animação dessas ilhas e a forma como a tradição reunia pessoas de diferentes gerações. Ainda hoje, quando visito a ilha, a minha primeira paragem é na zona da Serreta e dos Biscoitos, para contemplar os touros a pastar. O sossego do lugar traz-me de volta às férias de infância e aos dias passados na companhia dos meus avós maternos. Recordar é viver; por vezes, basta regressar a um lugar para sentirmos de novo a presença dos que ali nos acompanharam.
Há outra paragem na Terceira que me desperta recordações igualmente vivas: o Clube de Golfe da Ilha Terceira. Em miúdo, o meu avô levava-me até lá, numa época em que o clube estava profundamente ligado à presença norte-americana na Base das Lajes. Recordo-me de que tudo o que ali nos serviam vinha dos Estados Unidos, até as batatas fritas. Beber uma Coca-Cola e comer um hambúrguer com queijo naquele ambiente era, para mim, uma experiência extraordinária. Lembro-me até das máquinas de jogo, que funcionavam com moeda norte-americana. As visitas à base e as compras no BX, a loja destinada à comunidade militar americana, completavam essa descoberta. Fascinavam-me as barras de chocolate e os outros produtos que ali encontrava. Muito antes de viajar para os EUA, tive na Terceira o meu primeiro contacto com a vida americana.
Foi, à maneira de um miúdo, um amor à primeira vista, nascido de experiências simples que nunca esqueci.
No Faial, da casa dos meus avós paternos, na Horta, olhava pelas janelas e via a grandeza da montanha do Pico, a ilha onde nasci. Pelo canal passavam diariamente barcos que ligavam as duas ilhas. Ficava a observá-los, ora seguindo o seu movimento, ora voltando os olhos para a montanha, que parecia permanecer sempre no mesmo lugar à minha espera. Dentro de casa, brincava ao assistente do meu avô, que era dentista e também fazia próteses dentárias. Ele próprio entretinha-me a fazer dentaduras, imaginando que participava no seu trabalho. Hoje compreendo melhor a importância daqueles momentos: observar o meu avô, imitá-lo e permanecer a seu lado era uma forma infantil, mas profunda, de conhecer o seu mundo.
É natural que, ao regressar a Portugal, procure primeiro os lugares onde essas memórias nasceram. Cada emigrante tem os seus. Todavia, a ligação à terra de origem não deve limitar o nosso conhecimento do país.
No Norte, Portugal apresenta-nos paisagens de extraordinária força. As montanhas do Minho e de Trás-os-Montes, as aldeias construídas em pedra e as encostas do Douro testemunham tanto a beleza da natureza como a persistência do trabalho humano. Entre os meus destinos preferidos no continente encontra-se Viana do Castelo. A relação entre o rio, o mar e o monte, a elegância da cidade e a presença das tradições minhotas fazem dela um lugar a que gosto de voltar.
O Porto oferece uma expressão do Norte, com o seu rio, as suas pontes e a personalidade das suas gentes. Mas seria um erro conhecer apenas as grandes cidades. Nas pequenas localidades, uma conversa à porta de casa, uma festa local ou a explicação de um costume podem revelar-nos aspetos da vida portuguesa que nenhum roteiro consegue transmitir.
À medida que seguimos para o Centro, sucedem-se paisagens e formas de vida distintas. A Serra da Estrela, as aldeias do interior, as cidades marcadas pelo estudo e as povoações voltadas para o Atlântico mostram-nos uma diversidade que não se deixa reduzir a uma única imagem.
Lisboa possui uma relação singular com a luz, com o Tejo e com o mar. As suas ruas antigas convidam-nos a pensar nas sucessivas gerações que ali viveram e trabalharam. Mais a sul, o Alentejo impõe um ritmo diferente: a amplitude dos campos, as povoações caiadas, o silêncio das tardes de Verão e a força do cante compõem uma paisagem cultural inconfundível. O Algarve, por sua vez, merece ser conhecido para além das praias. As suas vilas, os seus campos e os seus costumes revelam uma região mais rica do que a imagem habitualmente associada às férias.
O território português prolonga-se, naturalmente, pelo Atlântico. A Madeira e os Açores possuem paisagens, histórias e tradições próprias. Para mim, que cresci entre ilhas, essa dimensão de Portugal tem um significado especial.
Todavia, a beleza de Portugal não reside apenas nas suas paisagens ou no seu património. Encontra-se também nas suas gentes. Está em quem recebe um familiar chegado de longe e lhe dedica o tempo que for preciso; em quem fala com conhecimento e estima da sua terra; em quem aprendeu um ofício com os mais velhos e procura transmiti-lo à geração seguinte.
Também a gastronomia nos permite conhecer o país. Os pratos de cada região resultam dos seus recursos, do trabalho das suas populações e de conhecimentos transmitidos ao longo do tempo. À mesa, partilham-se alimentos, mas também histórias. Uma receita de família pode revelar tanto sobre uma comunidade como um edifício antigo ou uma página de história.
Esta perspetiva parece-me particularmente importante para os portugueses da diáspora. Os dias de férias são muitas vezes escassos e o desejo de estar com a família é, legitimamente, a primeira prioridade. Ainda assim, cada visita pode reservar algum espaço para um lugar desconhecido.
Quando levamos os filhos e os netos connosco, essa escolha adquire um valor ainda maior. Mostrar-lhes a casa dos avós e contar-lhes a história da família ajuda-os a compreender de onde vêm. Dar-lhes a conhecer outras regiões, outras pessoas e outras tradições permite-lhes perceber que a sua herança portuguesa não termina à porta dessa casa. Pertence-lhes também o país que se estende para além dela.
Deixo, por isso, um convite aos portugueses que vivem pelo mundo: na próxima viagem, regressem à terra da família. Reúnam-se com os seus, recuperem as histórias antigas e partilhem-nas com os mais novos. Depois, escolham um lugar que ainda não conhecem. Percorram Portugal de norte a sul, ao ritmo que o tempo permitir, e deem-se a oportunidade de conhecer as pessoas que lhe dão vida.
Foi entre o Pico, São Miguel, a Terceira e o Faial que comecei a conhecer Portugal. Essas ilhas continuarão sempre a chamar-me de regresso. Mas o afecto que lhes tenho é também uma razão para prosseguir viagem e descobrir melhor o país de que fazem parte.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores