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Há seres cuja presença não se mede apenas pela utilidade que prestam, nem se esgota na enumeração das funções que exercem. Há seres cuja importância se impõe de modo mais profundo, mais silencioso e mais duradouro, precisamente porque aquilo que são vale mais do que aquilo que fazem. O Lanzer vom Fichtenschlag, nascido a 4 de Abril de 2019, é, para mim, a expressão viva dessa verdade.

César DePaço

Nascido na Alemanha, terra onde a disciplina, a solidez e o rigor sempre ocuparam lugar de relevo na formação do carácter, o Lanzer iniciou, aos três meses de idade, o seu exigente percurso de preparação segundo os princípios do Schutzhund. Importa esclarecer que o Schutzhund, expressão alemã que pode entender-se como cão de protecção, não constitui um simples treino de ataque, como por vezes se julga de forma apressada e superficial. Trata-se, antes, de um método rigoroso de formação e avaliação, tradicionalmente ligado às qualidades de trabalho de determinadas raças, e estruturado em três grandes áreas: rastreio, obediência e protecção. O que nele se procura aferir não é somente a força física do animal, mas também a sua inteligência, a sua estabilidade nervosa, o seu autodomínio, a sua coragem, a sua capacidade de discernimento e a sua prontidão para agir sob comando, sempre com elevado grau de disciplina. Em termos sérios, é uma verdadeira escola de carácter aplicada ao cão, onde não basta o impulso, nem serve o mero instinto, exigindo-se, pelo contrário, equilíbrio, firmeza e obediência sob pressão.

Esse processo de formação prolongou-se até aos três anos de idade, tendo sido concluído com o grau de exigência próprio de um animal destinado não à banalidade doméstica, mas à excelência. Concluída essa preparação, o Lanzer veio até mim, em New Jersey, e desde então passou a ocupar na minha vida um lugar que não pode ser descrito em termos meramente funcionais. Ele não é, para mim, apenas um cão admirável, nem apenas um companheiro de excepção. É uma presença constante, uma referência silenciosa e uma lição viva de qualidades que o homem moderno tantas vezes proclama, mas cada vez menos encarna.

César DePaço e o Sargento K-9 Lanzer

César DePaço e o Sargento K-9 Lanzer

No dia 16 de Maio de 2022, o Lanzer foi integrado como K-9 no Somerset County Sheriff’s Office, no Estado de New Jersey, facto que assinalou, de modo solene e merecido, o reconhecimento institucional das qualidades que nele já eram evidentes. Em 31 de Agosto de 2023, foi distinguido como K-9 Honorário do Flagler County Sheriff’s Office, no Estado da Florida, honra essa que antecedeu a sua tomada de posse formal, em 5 de Outubro de 2023, como Deputy K-9 Honorário daquele mesmo organismo, igualmente no Estado da Florida. Já em 5 de Janeiro de 2024, o Lanzer prestou juramento e foi reconhecido como K-9 do Mercer County Prosecutor’s Office, no Estado de New Jersey, ampliando assim, de forma notável, o âmbito do reconhecimento oficial da sua presença e do seu valor. Pouco depois, em 28 de Fevereiro de 2024, o Brielle Police Department, também no Estado de New Jersey, conferiu-lhe um Certificado de Honra, distinção que exprime não só o apreço institucional pela sua figura e pelo seu porte, mas também o reconhecimento da ligação de respeito, confiança e estima que a sua presença inspira junto das forças da ordem. Finalmente, em 25 de Junho de 2024, o Lanzer foi promovido a Sargento K-9 no Somerset County Sheriff’s Office, no Estado de New Jersey, distinção que não representa apenas uma progressão formal, mas antes a confirmação pública da disciplina, da seriedade e da nobreza com que sempre desempenhou a sua missão.

Todavia, seria empobrecer a sua verdadeira dimensão reduzi-lo à soma dos títulos e distinções que recebeu. As homenagens honram-no. As nomeações reconhecem-no. Os juramentos consagram publicamente aquilo que nele já existe por natureza. Mas nenhuma dessas fórmulas, por mais solenes que sejam, esgota a substância daquilo que o Lanzer é.

Não o defino, pois, pelos títulos que legitimamente conquistou, ainda que os mereça. Não o defino sequer pela imponência da sua postura ou pela nobreza evidente do seu porte. Defino-o, acima de tudo, pela sua natureza. E é nessa natureza que reside a sua verdadeira grandeza.

O Sargento K-9 Lanzer

O Sargento K-9 Lanzer

O Lanzer não finge. Não representa. Não se dobra às conveniências do instante, nem se altera segundo a expectativa alheia. É, em todos os momentos, fiel àquilo que é. Num tempo em que tantos vivem de aparência, de cálculo e de adaptação oportunista, há algo de profundamente reconfortante em contemplar um ser cuja identidade permanece intacta. A sua constância não é esforço. É essência.

A sua lealdade não se anuncia, vive-se. Não precisa de ser proclamada, porque se manifesta de forma espontânea, íntegra e permanente. Não depende de aplauso, nem de recompensa. Não conhece interesse, nem estratégia. É uma lealdade silenciosa, mas absoluta, que se revela na vigilância serena, no olhar atento, na proximidade firme e na disponibilidade natural para estar presente sem hesitação.

Há, além disso, no Lanzer, uma dignidade intrínseca que não se compra, não se simula e dificilmente se ensina. O treino aperfeiçoa capacidades. A disciplina orienta comportamentos. Mas a verdadeira dignidade pertence à ordem da essência. E o Lanzer possui-a de forma inequívoca. Nota-se na maneira como ocupa o espaço, na forma como observa sem inquietação, na compostura com que permanece firme, e até no silêncio com que impõe respeito sem necessidade de agitação.

Conviver com ele é, para mim, um exercício contínuo de reflexão. Porque, sem palavras, sem discursos e sem qualquer pretensão de ensinar, ele recorda-me diariamente princípios que muitos homens abandonaram em troca da facilidade, da vaidade ou da conveniência. Recorda-me o valor da constância num mundo dominado pela volubilidade. Recorda-me o valor da discrição numa época fascinada pelo ruído. Recorda-me, acima de tudo, o valor da lealdade verdadeira, essa forma superior de fidelidade que não depende das circunstâncias.

O Lanzer não procura agradar ao mundo. Não vive para impressionar. Não necessita de representar uma versão artificial de si mesmo. Limita-se a ser aquilo que é, com uma coerência rara e quase austera. E talvez seja precisamente essa coerência que mais o distingue. Num só olhar seu, há por vezes mais verdade do que em muitos discursos longos, elaborados e socialmente celebrados.

Não há nele duplicidade. Não há distância entre o que aparenta e o que é. Não há contradição entre presença e essência. E essa integridade, tão simples e tão absoluta, torna-se, para quem sabe observar, quase uma lição moral.

Vivemos rodeados de máscaras, de artifícios e de teatralidades. O Lanzer, pelo contrário, relembra-nos que a grandeza autêntica reside na fidelidade à própria natureza.

Por isso mesmo, nunca o vi apenas como um animal de estimação, nem somente como um cão de trabalho. Vejo-o como um companheiro de carácter. Vejo-o como uma referência silenciosa de firmeza. Vejo-o, até, como um espelho incómodo para um tempo em que muitos seres humanos perderam precisamente aquilo que num cão como ele surge de forma natural: a honra da constância, a pureza da lealdade e a serenidade da força contida.
 

No fundo, o Lanzer relembra-me que a verdadeira grandeza não está naquilo que se exibe ao exterior, mas naquilo que permanece inalterado no interior.


E essa é uma lição que vale tanto para os homens como para os animais, embora, em muitos casos, sejam os animais a honrá-la com maior elevação.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores