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Escolhi esta expressão, "Enjoy yourself, it's later than you think", tornada conhecida em 1949 pela canção Enjoy Yourself, com versos de Herb Magidson e música de Carl Sigman, não por mero gosto literário, nem por simples curiosidade musical, mas porque traduz, com notável simplicidade, uma das verdades mais graves da existência humana. Há frases que nos acompanham porque dizem, em poucas palavras, aquilo que a própria vida se encarrega de confirmar. Esta é uma delas. Com o passar dos anos, com as perdas, as desilusões, os deveres cumpridos, as batalhas travadas e as alegrias inesperadas, compreende-se melhor que o tempo é o único bem que jamais se recupera.

César DePaço

Esta frase encerra uma verdade de permanente actualidade: a vida passa depressa, muitas vezes mais depressa do que a prudência humana deseja reconhecer.

Vivemos num tempo em que quase tudo se apresenta como urgente, mas em que nem tudo se revela verdadeiramente importante. Corremos atrás de compromissos, interesses, negócios, ambições, vaidades, disputas e pequenas contendas pessoais, esquecendo, demasiadas vezes, que o tempo não se detém perante a nossa vontade. O relógio não pede licença, não aguarda pela nossa conveniência, nem se compadece com os nossos adiamentos.

Há uma ilusão antiga, profundamente enraizada no espírito humano: a de que haverá sempre tempo. Tempo para perdoar, tempo para agradecer, tempo para visitar, tempo para corrigir uma injustiça, tempo para dizer uma palavra amiga, tempo para viver com maior inteireza. Todavia, a vida, como a experiência e a História tantas vezes demonstram, não obedece aos nossos calendários nem às nossas presunções. O amanhã, que tantas vezes invocamos como certeza, poderá não chegar com a generosidade que dele esperamos.

A frase "aproveitai a vida, porque é mais tarde do que pensais" não deve, contudo, ser entendida como convite à leviandade, ao prazer sem freio ou à irresponsabilidade moral. Pelo contrário. Aproveitar a vida é saber vivê-la com dignidade, carácter, gratidão e sentido do dever. Não consiste em desperdiçar os dias em excessos passageiros, mas em empregá-los com inteligência, com elevação de espírito e com consciência moral.

Aproveita verdadeiramente a vida quem honra a palavra dada, quem trabalha com seriedade, quem respeita a família, quem cultiva amizades leais, quem auxilia o próximo sem transformar a generosidade em espectáculo, quem sabe sorrir sem perder a compostura e quem compreende que a existência não se mede apenas pelo que se acumula, mas sobretudo pelo exemplo que se deixa.

É mais tarde do que julgamos quando adiamos uma reconciliação. É mais tarde do que julgamos quando deixamos de telefonar a alguém que envelheceu à espera de uma palavra nossa. É mais tarde do que julgamos quando sacrificamos a paz interior ao orgulho, ao ressentimento ou à ambição desordenada. É mais tarde do que julgamos quando confundimos sucesso com vaidade, influência com grandeza e notoriedade com merecimento.

A sociedade moderna ensinou muitos homens a viverem projectados para o exterior: para a imagem, para a opinião alheia, para o aplauso fácil e para a aprovação pública. Porém, a verdadeira vida continua a acontecer nos lugares simples e essenciais: dentro de casa, à mesa, numa conversa sincera, numa caminhada tranquila, num gesto de bondade, no cumprimento de um dever, ou no silêncio respeitoso perante aquilo que é maior do que nós.

Não há fortuna que compre o tempo perdido. Não há título que substitua uma consciência tranquila. Não há poder que suspenda a passagem dos anos. Por isso, talvez a maior sabedoria consista em viver com firmeza, mas sem dureza; com ambição, mas sem perder a alma; com alegria, mas sem esquecer a responsabilidade; com autoridade, mas sem deixar de reconhecer a fragilidade da condição humana.
 

Aproveitar a vida é também compreender que nem todos caminharão connosco até ao fim. Algumas pessoas pertencem apenas a um capítulo da nossa existência, não ao livro inteiro. Umas ensinam-nos pela lealdade; outras, infelizmente, pela ingratidão. Mas até essas experiências devem ser colocadas no seu devido lugar.


A vida é demasiado breve para ser consumida por ressentimentos permanentes, por disputas estéreis ou por mágoas que nada acrescentam à dignidade de quem as carrega.

Chega uma altura em que o homem deve interrogar-se com seriedade: estou apenas a existir ou estou verdadeiramente a viver? Estou a honrar os meus princípios ou apenas a sobreviver às circunstâncias? Estou a construir algo que mereça permanecer ou estou somente a alimentar o ruído passageiro do mundo?

"É mais tarde do que pensais" não é uma ameaça. É uma advertência. Talvez seja mesmo uma bênção, se soubermos escutá-la. Recorda-nos que cada dia ainda vivido constitui uma oportunidade para fazer melhor, amar melhor, servir melhor, agradecer mais e desperdiçar menos.

No fim, a vida não será medida apenas pelos bens acumulados, pelos cargos ocupados ou pelas vitórias alcançadas. Será medida pelo carácter demonstrado, pelas vidas tocadas, pela palavra cumprida e pela serenidade com que cada um pôde olhar para trás e dizer: fiz o que devia, enquanto me foi concedido fazê-lo.

Por isso, aproveitai a vida. Mas aproveitai-a com honra, com gratidão e com propósito. Porque, de facto, é mais tarde do que muitos pensam.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores