Há inimigos que se apresentam de forma aberta, com rosto definido e intenção declarada. São adversários visíveis, por vezes duros, mas pelo menos honestos na sua presença. Outros, porém, surgem de modo silencioso, disfarçados de prudência, de cansaço, de conveniência ou de falsa espera pelo momento ideal. Entre estes, poucos são tão perigosos como a procrastinação.
A procrastinação é, muitas vezes, a forma elegante através da qual o fracasso se instala na vida de um homem. Não chega de uma só vez. Chega devagar, em pequenas justificações, em adiamentos aparentemente inofensivos, em promessas feitas a si próprio de que amanhã haverá mais tempo, mais energia, mais clareza ou melhores condições. Porém, a verdade é simples: o amanhã raramente respeita quem desprezou o dever de hoje.
A vida ensinou-me que o sucesso não pertence necessariamente ao mais inteligente, ao mais privilegiado ou ao mais eloquente. Pertence, acima de tudo, ao mais determinado, ao mais disciplinado e ao que compreende que a palavra dada, a responsabilidade assumida e a acção imediata têm valor moral. Um homem pode errar, pode cair e pode recomeçar. Mas dificilmente vencerá se fizer do adiamento um hábito e da indecisão um modo de vida.
Na minha filosofia de vida, a acção ocupa um lugar central. Não acredito em esperar indefinidamente por circunstâncias perfeitas, porque elas quase nunca existem. A vida é feita de decisões muitas vezes imperfeitas, mas tomadas com carácter, coragem e sentido de responsabilidade. Quem espera demasiado acaba, frequentemente, por assistir à passagem das oportunidades que outros, mais audazes e mais disciplinados, souberam aproveitar.
Procrastinar é abdicar silenciosamente do controlo da própria vida. É permitir que o tempo, esse juiz implacável, decida por nós. E quando o tempo decide por nós, raramente decide a nosso favor. Cada compromisso adiado, cada chamada não feita, cada decisão evitada e cada obrigação empurrada para diante enfraquece a autoridade interior de quem deseja construir algo sólido.
O sucesso exige ordem. Exige método. Exige respeito pelo tempo. Exige acordar cedo, cumprir, responder, decidir e agir. Exige fazer primeiro aquilo que é necessário, mesmo quando não é agradável.
A disciplina não é uma prisão; é a estrutura que permite ao homem livre alcançar os seus objectivos. Sem disciplina, a liberdade transforma-se em desordem. Sem acção, a ambição transforma-se em fantasia.
Vivemos numa época em que muitos confundem desejo com realização e intenção com mérito. Mas desejar não é construir. Intencionar não é executar. Falar não é fazer. O mundo pertence aos que concretizam. Aos que se levantam quando outros ainda hesitam. Aos que assumem responsabilidades quando outros procuram desculpas. Aos que tratam o tempo como património e não como coisa descartável.
Na vida empresarial, na vida pública, na família ou nas relações pessoais, a procrastinação tem sempre um custo. Pode custar dinheiro, respeito, confiança, oportunidades ou reputação. Muitas vezes, custa algo ainda mais grave: custa credibilidade. E a credibilidade, uma vez perdida, não se reconstrói com facilidade. Quem promete e não cumpre, quem adia sem razão, quem deixa que os assuntos se arrastem, acaba por revelar mais sobre o seu carácter do que talvez desejasse.
A pontualidade, a rapidez na decisão e a capacidade de execução são sinais de seriedade. Não são meros detalhes administrativos. São expressões de carácter. Uma pessoa séria não trata os compromissos como sugestões. Trata-os como deveres. E quem compreende o dever compreende também que o tempo dos outros merece respeito.
Não defendo a precipitação irresponsável. Há momentos em que é necessário reflectir, estudar, ouvir e ponderar. Mas ponderar não é paralisar. Prudência não é medo. Cautela não é desculpa. O verdadeiro homem de acção sabe distinguir entre a reflexão necessária e o adiamento cobarde. Sabe que a decisão tomada no tempo certo vale mais do que a decisão perfeita tomada tarde demais.
O sucesso é, muitas vezes, a soma de pequenas vitórias diárias contra a preguiça, contra a dúvida e contra a tentação de adiar. É responder quando há que responder. É resolver quando há que resolver. É avançar quando há que avançar. Não se constrói uma vida de resultados com uma mentalidade de desculpas.
A procrastinação também enfraquece a autoridade pessoal. Quem adia constantemente deixa de confiar plenamente em si próprio. Passa a saber, intimamente, que as suas promessas podem não ser cumpridas, que os seus planos podem ficar suspensos, que os seus projectos podem morrer antes mesmo de nascer. E quando um homem perde confiança na sua própria disciplina, perde uma parte essencial da sua força.
Por outro lado, aquele que age, ainda que com dificuldades, fortalece-se. Cada tarefa concluída, cada decisão tomada, cada compromisso cumprido representa uma pequena vitória sobre a desordem. O homem disciplinado não espera que a motivação o visite. Ele cumpre porque deve cumprir. Age porque deve agir. Avança porque compreende que a vida não espera pelos indecisos.
Há uma grande diferença entre quem tem sonhos e quem tem obra feita. Os sonhos podem ser nobres, mas só a acção lhes dá corpo. Muitos homens desejam vencer; poucos aceitam a disciplina necessária para vencer.
Muitos falam de futuro; poucos trabalham hoje para merecer esse futuro. Muitos querem respeito; poucos compreendem que o respeito nasce, em grande parte, da constância, da responsabilidade e da capacidade de cumprir.
O tempo é talvez o recurso mais democrático e, ao mesmo tempo, o mais impiedoso. Todos recebemos vinte e quatro horas por dia, mas nem todos as tratamos com igual seriedade. Uns transformam o tempo em construção. Outros desperdiçam-no em desculpas. Uns fazem do dia uma oportunidade. Outros fazem dele uma repetição de adiamentos. No fim, a diferença entre ambos torna-se evidente.
A minha experiência ensinou-me que as grandes conquistas raramente são fruto de gestos ocasionais. São resultado de hábitos. Hábito de chegar cedo. Hábito de cumprir. Hábito de decidir. Hábito de não deixar para amanhã aquilo que pode e deve ser feito hoje. O sucesso, quando é sólido, tem quase sempre raízes invisíveis: disciplina, sacrifício, persistência e respeito pelo dever.
Por isso, considero a procrastinação uma inimiga silenciosa, mas mortal, da realização humana. Ela rouba ambição, enfraquece a vontade e compromete o destino. O homem que deseja vencer deve aprender a combatê-la todos os dias, não com discursos, mas com actos. Não com promessas, mas com execução. Não com intenções vagas, mas com decisões concretas.
A vida não recompensa apenas quem sonha. Recompensa quem executa. Não honra apenas quem promete. Honra quem cumpre. E não espera por aqueles que passam a existência a preparar-se para começar.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores