Houve um tempo, não muito distante, em que a palavra de um homem valia mais do que muitas assinaturas. Um aperto de mão bastava. Um compromisso assumido constituía, por si só, uma obrigação moral. Não era necessário rodear cada promessa de cláusulas, notificações ou advertências, porque existia um profundo sentido de honra, de dever e de responsabilidade. Esse tempo parece hoje pertencer a outra época. Vivemos numa sociedade em que se assina muito e se cumpre pouco. Multiplicam-se contratos, regulamentos e procedimentos, mas desvanece-se, demasiadas vezes, o elemento essencial: o carácter. Tudo se relativiza. Tudo se justifica. Tudo se reinterpreta à luz da conveniência do momento.
Contudo, uma sociedade sem palavra é uma sociedade sem coluna vertebral.
A palavra dada não é uma relíquia do passado. Continua a ser o primeiro contrato de qualquer comunidade verdadeiramente civilizada. É ela que distingue o homem íntegro do oportunista, o cidadão responsável do irresponsável, o servidor público do carreirista. Quem promete e não cumpre perde muito mais do que credibilidade: perde dignidade.
As gerações que nos antecederam compreenderam esta verdade melhor do que nós. A honra não se ensinava em discursos; praticava-se diariamente. Trabalhava-se com dedicação, respeitavam-se os mais velhos, sustentava-se a família, cumpriam-se os compromissos assumidos e deixava-se que a conduta falasse mais alto do que qualquer proclamação pública.
Portugal conheceu homens cuja palavra possuía verdadeiro peso moral. Nuno Álvares Pereira, exemplo maior de lealdade, coragem e serviço à Pátria. Mouzinho de Albuquerque, paradigma de disciplina e sentido de missão. Humberto Delgado, que enfrentou o poder com rara frontalidade. Salgueiro Maia, cuja serenidade e sentido de responsabilidade marcaram um dos momentos decisivos da nossa História. Aristides de Sousa Mendes, que preferiu obedecer à consciência em vez da conveniência. Francisco Sá Carneiro, cuja firmeza de convicções continua a inspirar sucessivas gerações.
A estes juntam-se milhares de militares, guardas, polícias, magistrados, professores, empresários e servidores públicos que, longe dos holofotes, fizeram da palavra dada uma obrigação de consciência.
Homens diferentes, em épocas distintas, mas unidos por uma mesma virtude: quando davam a sua palavra, ela tinha valor.
É precisamente esse valor que hoje parece escassear.
Fala-se constantemente de valores, mas vive-se frequentemente sem disciplina. Exigem-se direitos, esquecem-se deveres. Invoca-se a liberdade, mas rejeita-se a responsabilidade. Reclama-se justiça, mas apenas quando ela serve interesses próprios. A palavra dada tornou-se vítima de uma cultura que banaliza o compromisso e normaliza a falta de coerência.
Não surpreende, por isso, que tantas instituições tenham perdido autoridade.
A família enfraquece quando a palavra dos pais deixa de ser respeitada. A escola enfraquece quando a disciplina é confundida com opressão. A política degrada-se quando a promessa eleitoral deixa de constituir compromisso moral. A amizade dissolve-se quando a lealdade dura apenas enquanto subsiste conveniência.
Tudo começa pela palavra.
Antes da lei escrita existe a consciência. Antes dos tribunais existe a honra. Antes da assinatura existe a responsabilidade pessoal. Quando estas realidades desaparecem, nenhuma legislação, por mais extensa que seja, conseguirá impedir a decadência moral de uma sociedade.
Portugal foi edificado por gerações de homens e mulheres simples, muitas vezes sem grande instrução académica, mas dotados de uma sólida formação moral. Tinham poucos bens materiais, mas possuíam riqueza de carácter. Eram pobres em património, mas ricos em honra. Hoje, infelizmente, assistimos demasiadas vezes ao contrário: abundância de palavras e escassez de princípios.
Nenhuma família, nenhuma empresa, nenhuma nação e nenhuma civilização se constroem sobre a mentira conveniente, a desculpa permanente ou o compromisso descartável. Constroem-se sobre lealdade, disciplina, respeito e honra.
O progresso material, por si só, nunca será suficiente. Podemos dispor de mais tecnologia, mais conforto e mais informação. Todavia, se perdermos o respeito pela promessa feita, se deixarmos de sentir vergonha por faltar à palavra dada, não estaremos a progredir. Estaremos apenas a modernizar a decadência.
É urgente regressar ao essencial.
Ensinar aos filhos que uma promessa obriga. Ensinar aos jovens que a liberdade exige responsabilidade. Ensinar aos homens públicos que servir é mais importante do que aparecer. Ensinar aos empresários que a confiança vale mais do que qualquer ganho imediato. Ensinar toda a sociedade que a palavra dada continua a ser uma das mais elevadas expressões de nobreza moral.
Não se trata de nostalgia. Trata-se de sobrevivência civilizacional.
Quando ninguém acredita na palavra de ninguém, instala-se inevitavelmente a desconfiança. A família desconfia, as empresas desconfiam, os cidadãos desconfiam e o próprio Estado desconfia. E uma sociedade construída sobre a desconfiança permanente acaba inevitavelmente prisioneira de papéis, processos, litígios e ressentimentos.
A palavra dada deve voltar a ser sagrada.
Não por imposição da lei, mas por exigência da consciência. Não por receio da punição, mas por respeito próprio. Não porque alguém esteja a observar, mas porque um homem digno deve ser o primeiro juiz da sua própria conduta.
No fim, quando passam os cargos, os títulos, a riqueza e os aplausos, permanece apenas uma pergunta verdadeiramente importante:
Este homem honrou a sua palavra?
Para mim, essa continuará sempre a ser uma das mais elevadas medidas de carácter.
Porque a palavra dada é, talvez, o último património de honra que resta a uma sociedade que corre o risco de esquecer o verdadeiro significado da lealdade, da responsabilidade e do dever.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores