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A História, na sua sobriedade implacável, raramente se deixa impressionar por discurso eloquentes

 

Robin George Collingwood, historiador e filósofo britânico do século XX, afirmou que a única pista segura para avaliar o que um homem pode fazer reside na observação daquilo que já fez. Esta máxima, de aparente simplicidade, encerra uma lição intelectual de grande rigor e utilidade cívica. Numa época em que a palavra é frequentemente inflacionada e a promessa elevada acima da realização concreta, a reflexão de Collingwood recorda que a História, com a sua sobriedade própria, julga os homens não pelas intenções que proclamam, mas pelas obras que efectivamente deixam.

Vivemos presentemente num tempo em que muitos desejam ser avaliados pelas declarações que produzem e não pelos resultados que entregam. Tal inversão de critérios conduz inevitavelmente à erosão do sentido de responsabilidade individual. Com efeito, se a intenção basta, a exigência desaparece; se a retórica substitui a obra, a disciplina torna-se dispensável. A consequência natural desta lógica é o enfraquecimento das instituições e a diluição do mérito, pois deixa de ser necessário provar competência através da acção concreta e continuada ao longo do tempo.

César DePaço

A experiência da vida empresarial e da intervenção cívica ensina, de modo inequívoco, que as palavras apenas adquirem legitimidade quando confirmadas pela acção perseverante. Empresas não se constroem com discursos bem elaborados, mas com decisões firmes, gestão rigorosa, cumprimento escrupuloso das obrigações legais e capacidade de enfrentar adversidades sem ceder à tentação do facilitismo. Do mesmo modo, o verdadeiro compromisso social não se mede pela eloquência das intenções declaradas, mas pela constância do apoio prestado às instituições que asseguram a ordem, a segurança e o bem comum.

A lição de Robin George Collingwood revela-se particularmente pertinente quando aplicada à vida pública contemporânea.
 

Assiste-se, com demasiada frequência, a uma confusão entre visibilidade mediática e liderança efectiva. Confunde-se popularidade com autoridade, emoção com seriedade, promessa com capacidade real de execução.


Todavia, a autoridade autêntica constrói-se lentamente, através de uma sucessão de actos coerentes, de responsabilidades assumidas e de compromissos cumpridos ao longo de anos, e não de momentos passageiros de entusiasmo colectivo.

Também no plano das nações esta verdade se impõe com clareza meridiana. Os países não são julgados pelas narrativas que produzem sobre si próprios, mas pela solidez das suas instituições, pela segurança que garantem aos cidadãos, pelo respeito que demonstram pelo Estado de Direito e pela forma como recompensam o mérito e o esforço. A prosperidade duradoura não nasce de proclamações grandiosas, mas da disciplina económica, da estabilidade jurídica e da continuidade de políticas que valorizem a responsabilidade, o trabalho e a iniciativa individual.

A diáspora portuguesa nos Estados Unidos constitui, a este propósito, um exemplo elucidativo. As gerações que emigraram não se limitaram a professar amor à Pátria em termos sentimentais; demonstraram-no através de trabalho árduo, empreendedorismo, respeito pela lei e dedicação à educação dos seus filhos. Foi essa obra silenciosa, constante e digna que granjeou respeito à comunidade luso-americana. Não foram as declarações retóricas que edificaram esse prestígio, mas sim décadas de comportamento exemplar e contributo concreto para a sociedade que os acolheu.

A cultura contemporânea, contudo, parece inclinar-se perigosamente para a valorização da aparência em detrimento da substância. A facilidade com que se proclamam virtudes sem que estas sejam comprovadas por acções efectivas cria um ambiente propício ao oportunismo e à mediocridade. Quando a sociedade deixa de exigir prova de competência através da obra realizada, abre-se caminho à irresponsabilidade e ao descrédito das lideranças, pois qualquer promessa, por mais vazia que seja, pode adquirir aparência de legitimidade.

A reflexão de Robin George Collingwood oferece, assim, um critério clássico e exigente de avaliação do carácter humano. Um homem sério deve ser julgado pela continuidade das suas decisões, pela forma como cumpre a palavra dada, pela disciplina com que gere os seus empreendimentos e pela lealdade que demonstra para com a família, a comunidade e as instituições que sustentam a ordem social. Não é a intensidade momentânea das intenções que define o valor de uma vida, mas a coerência prolongada entre o que se afirma e o que efectivamente se realiza.

Se desejamos restaurar um sentido robusto de responsabilidade nas nossas sociedades, importa regressar a este princípio elementar, mas frequentemente negligenciado. Menos retórica e mais obra. Menos proclamações e mais serviço efectivo. Menos promessas grandiosas e mais resultados verificáveis. Só assim será possível distinguir, com justiça e serenidade, entre aqueles que apenas falam e aqueles que verdadeiramente constroem.

A História, na sua sobriedade implacável, raramente se deixa impressionar por discursos eloquentes ou intenções declaradas com entusiasmo. A História guarda memória, sobretudo, daqueles que agiram com constância, coragem e sentido de dever ao longo de uma vida inteira. É nesse tribunal silencioso e duradouro que todos acabamos por ser avaliados, e é à luz desse juízo que a máxima de Robin George Collingwood permanece, ainda hoje, de uma actualidade incontornável.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.®
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores