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O sistema político converte-se num adversário funcional

César DePaço

As recentes eleições presidenciais constituíram, uma vez mais, um momento privilegiado de observação da psicologia cívica nacional. Encerrado o ciclo eleitoral, dissipadas as emoções do debate e atenuado o ruído mediático, o país regressou rapidamente à sua cadência habitual, revelando a notável estabilidade de comportamentos políticos que parecem atravessar gerações com escassa variação substantiva.

Já Júlio César, cônsul da República Romana e general de reconhecida autoridade política e militar, observava, nos confins da Ibéria, a existência de um povo que nem se governava nem se deixava governar. A distância temporal não diminui a pertinência da observação. Antes pelo contrário, a análise atenta da vida pública portuguesa contemporânea sugere a sobrevivência de traços comportamentais que resistem ao tempo, aos regimes e às sucessivas consultas eleitorais.

A observação cuidada do espaço cívico nacional permite identificar um fenómeno de natureza quase psicológica que transcende conjunturas políticas específicas. Trata-se de uma inclinação persistente para a queixa sistemática, acompanhada por uma resistência igualmente persistente à alteração efectiva dos comportamentos políticos. O lamento público não surge como simples acessório do discurso democrático, mas como mecanismo regular de autorregulação emocional colectiva.

O cidadão que protesta encontra, na crítica verbal ao sistema, uma forma de catarse socialmente legitimada. Ao verbalizar a sua insatisfação, experimenta uma sensação momentânea de lucidez e de superioridade moral, como se o simples acto de apontar as falhas do Estado o colocasse numa posição exterior e intelectualmente elevada face à ordem que critica. Todavia, essa crítica raramente se converte em acção consequente. Pelo contrário, esgota-se no próprio acto de ser proferida.
 

No momento eleitoral, quando a coerência exigiria a tradução do descontentamento em escolha efectiva, verifica-se um curioso fenómeno de retração psicológica.


O voto tende a reproduzir padrões habituais, funcionando como refúgio na previsibilidade do conhecido. A mudança, ainda que desejada em abstracto, é percepcionada como ameaça concreta. Mesmo em eleições presidenciais, frequentemente investidas de forte carga simbólica, o comportamento eleitoral revela uma preferência pela continuidade segura em detrimento do risco assumido.

Este comportamento evidencia uma tensão interna entre o desejo abstracto de mudança e o receio concreto da responsabilidade que essa mudança implica. Votar de forma diversa exige aceitar que o eventual fracasso futuro possa ser imputado à própria escolha, e não a uma entidade difusa e convenientemente designada por sistema. A ironia reside no facto de que, ao evitar esse risco, o eleitor preserva intacto o direito permanente à queixa após o acto eleitoral.

Deste modo, o sistema político converte-se num adversário funcional. É suficientemente próximo para ser alvo de censura quotidiana e suficientemente abstracto para jamais ser plenamente responsabilizado. O cidadão estabelece assim uma relação paradoxal com o poder, simultaneamente crítica e cúmplice, hostil e dependente, relação essa que se renova a cada eleição, independentemente do seu desfecho.

Este ciclo reforça-se através de uma forma subtil de fatalismo histórico, segundo a qual nada muda verdadeiramente, ainda que tudo seja incessantemente comentado. Tal crença não decorre tanto da experiência empírica da mudança falhada, mas da recusa prévia em experimentar a mudança em termos efectivos. O acto eleitoral, mesmo ao mais alto nível institucional, assume então a natureza de ritual repetitivo, tranquilizador precisamente por ser inócuo.

Uma democracia amadurecida exige mais do que cidadãos eloquentes na crítica ou momentaneamente mobilizados em períodos eleitorais. Exige indivíduos capazes de suportar o desconforto psicológico da coerência, isto é, a capacidade de alinhar convicções, discurso e acção, aceitando a possibilidade do erro como preço inevitável da responsabilidade cívica.

Enquanto a queixa continuar a funcionar como substituto da acção, o sistema não apenas sobreviverá, como será continuamente alimentado por aqueles que mais ruidosamente o denunciam após cada ciclo eleitoral. A ironia suprema consiste no facto de que o cidadão que se julga vítima do sistema é, em rigor psicológico, um dos seus mais fiéis sustentáculos.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores