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Vivemos numa época em que se fala abundantemente de direitos, mas cada vez menos de deveres. Ensinamos as novas gerações a reivindicar, mas nem sempre a merecer. Incentivamo-las a procurar a felicidade, mas raramente lhes explicamos que uma vida verdadeiramente realizada exige esforço, sacrifício, responsabilidade e, sobretudo, disciplina.

A disciplina tornou-se, para alguns, uma palavra incómoda. É frequentemente confundida com autoritarismo, rigidez ou ausência de liberdade. Nada poderia estar mais distante da verdade. A verdadeira disciplina não é a negação da liberdade. É precisamente aquilo que permite exercê-la com responsabilidade.

Ser livre não significa fazer tudo aquilo que desejamos. Significa possuir maturidade suficiente para compreender que cada escolha tem consequências e que nem todos os desejos devem ser satisfeitos. Uma sociedade que confunde liberdade com ausência de limites acaba, inevitavelmente, por enfraquecer o sentido de responsabilidade individual.

Durante gerações, a família, a escola e a própria sociedade ensinaram princípios elementares. Respeitava-se a palavra dada. Cumpriam-se horários. Reconhecia-se a autoridade legítima. Compreendia-se que o sucesso exigia trabalho e que o fracasso, embora doloroso, fazia parte da aprendizagem.

Hoje, porém, parece existir uma crescente preocupação em eliminar qualquer forma de desconforto da experiência humana. Queremos proteger os jovens da frustração, da derrota, da crítica e até das consequências naturais das suas próprias decisões. Fazemo-lo, muitas vezes, com as melhores intenções. Contudo, ao retirarmos todos os obstáculos do caminho, podemos também retirar oportunidades fundamentais de crescimento.

A adversidade possui uma dimensão pedagógica que nenhuma teoria consegue substituir. É perante a dificuldade que o carácter se revela e se constrói. É quando somos obrigados a esperar que aprendemos paciência. É quando perdemos que aprendemos humildade. É quando erramos que compreendemos a responsabilidade. E é quando temos de recomeçar que descobrimos a verdadeira dimensão da perseverança.

Disciplina significa levantar-se quando seria mais confortável permanecer deitado. Significa cumprir uma obrigação mesmo quando ninguém está a observar. Significa respeitar compromissos, controlar impulsos e compreender que aquilo que desejamos no presente nem sempre corresponde àquilo que nos beneficiará no futuro.

Não existe sociedade sólida sem indivíduos capazes de exercer autocontrolo. As instituições podem criar leis, regulamentos e mecanismos de fiscalização, mas nenhuma legislação consegue substituir integralmente a consciência individual. Uma comunidade verdadeiramente responsável começa muito antes da intervenção do Estado. Começa dentro de cada pessoa, dentro de cada família e dentro de cada casa.

É também por essa razão que considero preocupante a progressiva desvalorização da autoridade. Uma democracia saudável exige liberdade, naturalmente, mas exige igualmente respeito pelas instituições, pelos professores, pelos pais, pelas forças de segurança e por todos aqueles a quem a sociedade atribui responsabilidades legítimas.

Respeitar a autoridade não significa aceitar cegamente tudo aquilo que nos é imposto. A autoridade pode e deve ser questionada quando ultrapassa os seus limites. Mas existe uma diferença profunda entre pensamento crítico e ausência de respeito. Uma sociedade civilizada deve saber distinguir ambos.

A educação deveria, por isso, voltar a preocupar-se não apenas com aquilo que uma criança sabe, mas também com aquilo que ela aprende a ser. Conhecimento sem carácter é insuficiente. Inteligência sem responsabilidade pode tornar-se perigosa. Talento sem disciplina raramente alcança todo o seu potencial.

Os pais têm aqui uma responsabilidade que nenhuma escola poderá substituir. Amar um filho não significa evitar-lhe todas as dificuldades. Por vezes, amar significa dizer não. Significa estabelecer limites. Significa permitir que enfrente as consequências das suas escolhas. Significa prepará-lo não para um mundo imaginário onde todos o compreenderão e protegerão, mas para o mundo real, onde encontrará injustiça, competição, fracasso, responsabilidade e adversidade.

Também não devemos cometer o erro de considerar a disciplina uma virtude ultrapassada. Pelo contrário, quanto mais complexo e acelerado se torna o mundo, maior é a necessidade de princípios interiores capazes de orientar o indivíduo.

A tecnologia poderá transformar profissões. As sociedades poderão alterar costumes. As economias poderão atravessar ciclos de prosperidade e crise. Mas determinadas virtudes permanecem intemporais. Trabalho, honra, responsabilidade, lealdade, perseverança e respeito continuam a constituir fundamentos essenciais de uma vida digna.

Ao olhar para o meu próprio percurso, compreendo hoje que muitas das coisas que mais profundamente me marcaram não foram necessariamente as mais agradáveis no momento em que aconteceram. Foram as dificuldades, as recusas, os erros, as responsabilidades assumidas e os obstáculos que tive de ultrapassar que mais contribuíram para formar a pessoa que sou.

Com a idade aprendemos também uma verdade simples. Nem tudo aquilo que nos faz sentir bem nos faz bem, assim como nem tudo aquilo que nos custa nos prejudica. Muitas vezes, é precisamente aquilo que exige de nós maior esforço que acaba por nos proporcionar maior crescimento. Talvez seja tempo de voltarmos a ensinar esta realidade às novas gerações. Não para lhes tornar a vida mais difícil, mas para lhes proporcionar os instrumentos necessários para enfrentarem uma vida que, inevitavelmente, terá dificuldades.

Porque a disciplina não diminui o ser humano. Fortalece-o. Não lhe retira liberdade. Ensina-o a merecê-la. Não elimina sonhos. Dá-lhe os meios para os transformar em realidade.

César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores