Entre os múltiplos sinais de desorientação que marcam a vida contemporânea, poucos serão tão inquietantes como a progressiva deformação da missão própria da escola. Instituição nascida para instruir, formar e elevar, a escola parece hoje, em demasiados casos, ceder à tentação de abandonar o ensino sério para se converter em instrumento de inculcação ideológica. Onde antes se transmitia conhecimento, disciplina e respeito pelas grandes referências da civilização, vai-se insinuando, com alarmante desenvoltura, uma pedagogia mais empenhada em moldar consciências do que em formar inteligências.
Importa, por isso, reafirmar um princípio elementar, que não deveria jamais ter sido posto em causa. A escola existe para educar e não para doutrinar. Educar significa transmitir saber, desenvolver a capacidade de raciocínio, cultivar a memória, disciplinar o espírito e preparar os jovens para a vida adulta com seriedade e elevação. Doutrinar, pelo contrário, é condicionar o pensamento, reduzir a liberdade interior do aluno e encaminhá-lo para conclusões previamente definidas, não pela força da razão, mas pela pressão moral, psicológica ou cultural do meio envolvente.
A diferença entre uma e outra realidade é profunda e decisiva. A educação autêntica abre horizontes. A doutrinação fecha-os. A primeira convida o aluno a pensar. A segunda ensina-o a repetir. A primeira exige estudo, método, esforço e discernimento. A segunda contenta-se com a adesão emocional a palavras de ordem, slogans ou lugares comuns apresentados como se fossem verdades indiscutíveis. Uma forma homens livres. A outra produz espíritos dependentes.
A escola, na sua mais nobre concepção, não foi instituída para fabricar militantes, nem para promover causas transitórias, nem para transformar a sala de aula em tribuna de activismo. Foi criada para ensinar. E ensinar significa transmitir com rigor a língua, a história, a literatura, a matemática, as ciências, a filosofia e tudo quanto contribua para a estruturação de uma inteligência sólida e de um carácter recto. Uma escola que troca a instrução pela agitação ideológica deixa de servir a verdade e passa a servir interesses, tendências ou facções.
O professor, por seu turno, deve ser mestre e não comissário de consciências. A sua função não consiste em dizer ao aluno o que deve pensar, mas em ensiná-lo a pensar com rigor, prudência e independência. Compete-lhe expor factos, apresentar doutrinas, esclarecer contextos, estimular a reflexão e desenvolver o espírito crítico. Não lhe compete insinuar preferências ideológicas sob aparência de neutralidade, nem premiar conformidades intelectuais em prejuízo da liberdade de juízo. O verdadeiro educador desperta a inteligência. O doutrinador procura ocupá-la.
Também neste ponto importa não esquecer uma verdade fundamental. A escola não substitui a família. A família é o primeiro núcleo natural da educação e conserva, por isso, primazia moral no que respeita à formação de valores.
No lar aprendem-se as primeiras regras de conduta, os primeiros deveres, o respeito, a ordem, a compostura e a noção do bem e do mal. À escola cabe instruir, aperfeiçoar, complementar e disciplinar. Sempre que pretende usurpar o papel dos pais e apresentar como absolutos certos dogmas de natureza política, social ou moral, a escola excede a sua esfera legítima e invade um domínio que não lhe pertence.
É igualmente ilusório supor que a doutrinação favorece o espírito crítico. Nada mais falso. O verdadeiro espírito crítico nasce do estudo, da comparação, do debate honesto, do contacto com a pluralidade das ideias e da coragem de procurar a verdade sem submissão a modas intelectuais. Não floresce onde determinadas opiniões são consideradas intocáveis, onde certas narrativas são impostas como sagradas e onde a discordância é olhada com suspeita moral. Tal ambiente não forma cidadãos livres. Forma apenas repetidores obedientes de uma ortodoxia passageira.
As consequências deste desvio estão à vista. Muitos alunos saem hoje da escola menos preparados para o esforço, menos habituados à disciplina, menos capacitados para distinguir entre conhecimento e propaganda, entre argumentação e emotividade, entre verdade e manipulação. Em vez de se lhes fortalecer o carácter, afaga-se-lhes a sensibilidade. Em vez de se lhes exigir rigor, oferece-se-lhes complacência. Em vez de se lhes formar a independência interior, ensina-se-lhes a conformidade com o espírito do tempo. Ora, uma juventude assim educada será inevitavelmente mais vulnerável à pressão, mais frágil diante da adversidade e menos apta para o exercício responsável da liberdade.
Uma civilização que se preze não pode aceitar semelhante capitulação. Se deseja conservar a sua continuidade histórica, a sua coesão moral e a sua dignidade cultural, tem de restituir à escola a sua missão originária. Cumpre reabilitar o valor do conhecimento, da disciplina, da autoridade legítima e do mérito. Cumpre devolver ao professor a nobreza do magistério. Cumpre recordar que a escola não deve formar discípulos de uma ideologia, mas homens e mulheres cultos, moralmente firmes e intelectualmente livres.
As escolas deveriam, pois, educar e não doutrinar. Deveriam instruir e não manipular. Deveriam elevar e não condicionar. Porque a verdadeira educação prepara para a liberdade, ao passo que a doutrinação prepara para a servidão.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.®
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores