Entre as muitas ilusões que sustentam a vida pública moderna, poucas serão tão enfadonhas, ou tão ofensivas para a inteligência comum, como a ficção segundo a qual os políticos são guiados, acima de tudo, por princípios. Falam, é certo, como se assim fosse. Invocam a consciência, o dever, a justiça e o bem comum com um ar de grave elevação moral, como se cada um deles tivesse ascendido à vida pública vindo de uma esfera superior de virtude cívica. Todavia, o espectáculo tornou-se, a esta altura, tão elaborado, tão cerimonialmente vazio e tão manifestamente afastado da realidade, que já quase apetece admirar, não a sinceridade da representação, mas antes a disciplina da sua encenação.
Neste aspecto, o piloto profissional de corridas goza de certa superioridade moral sobre o político eleito. O piloto, ao menos, não presume enganar o público quanto aos arranjos financeiros que tornam possível a sua actuação. Apresenta-se diante de todos com o nome dos patrocinadores estampado no fato e na própria viatura. Não há ali santimónia, nem afectação de independência, nem aquela piedosa insistência na pureza pessoal enquanto o motor é alimentado pelo comércio. A relação é visível. A dependência é reconhecida. Ao público não se pede que aplauda uma ilusão.
O político, pelo contrário, aperfeiçoou a arte de parecer não patrocinado quando, em verdade, quase nunca o é. Apresenta-se como servidor do povo, quando tantas vezes não passa de beneficiário de um sistema intricado de patronato, de financiamento, de favores institucionais e de patrocínios ideológicos. Aquilo que no autódromo se exibe com franqueza, na política procura esconder-se sob a linguagem do sacrifício e do serviço. Assim, o candidato moderno converte-se numa figura singularmente curiosa: um homem dependente que fala como se fosse autónomo, um instrumento de interesses revestido da retórica da virtude pública.
Daí que se imponha, senão uma reforma integral da ordem política, ao menos uma reforma do seu figurino. Que os políticos se vistam como os pilotos de corrida. Que compareçam perante o eleitorado com os nomes dos seus principais financiadores expostos de forma clara nos casacos, nos púlpitos e nos materiais de campanha. Que o cidadão possa saber, num só relance, aquilo que hoje é obrigado a descobrir através de relatórios de financiamento eleitoral, declarações jurídicas, papéis enterrados em arquivos e, por vezes, graças ao labor tardio do jornalismo de investigação.
Se um candidato foi erguido pelo dinheiro da indústria farmacêutica, pelos empreiteiros da defesa, pelos grandes conglomerados económicos, pelos sindicatos, por fortunas activistas ou por máquinas ideológicas, não há razão moral séria para que tal verdade permaneça oculta até depois de contados os votos e amadurecidas as obrigações.
Esta proposta poderá parecer satírica, mas a sátira não é raras vezes mais do que o realismo expresso com suficiente nitidez para causar incómodo. O problema da vida política não reside na mera existência da influência. A influência é tão antiga como a própria sociedade organizada. A riqueza sempre procurou acesso ao poder, e o poder sempre encontrou maneira de recompensar fidelidades. Não, o verdadeiro escândalo está na insistência com que se exige do público que trate tais arranjos como se não existissem, ou, pior ainda, como se fossem irrelevantes. Espera-se do cidadão que acredite que aqueles que ascendem pela mão de sistemas de patrocínio, de dependência e de apoio organizado chegam ao poder imaculados pela própria mão que os elevou.
Isto não é apenas absurdo. É corrosivo para a vida republicana. Um povo livre não pode governar-se com prudência quando lhe é negada uma visão clara das forças que moldam os seus governantes. O autogoverno exige mais do que eleições. Exige visibilidade. Exige que o eleitor saiba não apenas o que um político proclama, mas também quem financiou a proclamação, quem facilitou a ascensão e quem permanece, discretamente, à espera de cobrar a dívida política logo que cesse o ruído da vitória. Onde esse conhecimento é obscurecido, as formas exteriores da liberdade podem subsistir, mas a sua substância começa a definhar.
O político moderno já não é o homem de Estado da velha tradição, nem sequer o operador francamente interesseiro de épocas menos sentimentais. É antes um híbrido teatral entre ambas as figuras: um moralista patrocinado, um instrumento marcado por interesses, que todavia insiste em ser recebido como consciência independente. Denuncia a corrupção enquanto flutua sobre os seus refinamentos. Celebra a transparência enquanto habita um sistema edificado sobre a ocultação. Fala incessantemente de serviço, quando tantas vezes mais se assemelha a um actor em audição para o papel da virtude, perante um público deliberadamente mantido na ignorância de quem pagou o palco.
Seria, pois, salutar que esta charada chegasse ao fim, ou, pelo menos, que fosse privada de parte da sua elegância. Imagine-se o efeito esclarecedor de um debate político em que cada candidato surgisse sob a insígnia visível dos interesses mais directamente responsáveis pela sua viabilidade. Quanto palavreado inútil se pouparia. Quanto fingimento moral se encurtaria. Quantas declarações altissonantes passariam imediatamente a ser entendidas no seu devido contexto. O público, ao menos uma vez, seria tratado com a dignidade de quem já não precisa de fingir que não vê o óbvio.
Vivemos numa época embriagada pela linguagem da transparência, da prestação de contas e da divulgação, e, no entanto, em parte alguma a ocultação é mais cuidadosamente cultivada do que na própria política democrática. O cidadão comum é observado, medido, classificado e instruído nas virtudes da abertura, enquanto a classe política continua a esconder as suas dependências mais profundas sob abstracções e palavras de ordem. Dizem-nos em que acreditam os nossos dirigentes, mas não com suficiente clareza quem os ajudou a acreditar. Oferecem-nos princípios, mas escondem-nos a sua proveniência.
A questão, portanto, não está em saber se os políticos têm patrocinadores. Naturalmente que os têm. A verdadeira questão é saber até quando o público aceitará a indignidade de ser convidado a ignorá-los. Se os pilotos de corridas podem ostentar os nomes dos seus patrocinadores de forma aberta e sem embaraço, então os políticos deveriam fazer o mesmo. Isso não purificaria a vida pública, nem restauraria a grandeza estadista onde ela escasseia. Mas alcançaria algo que, nos nossos dias, já quase parece revolucionário: faria com que a aparência correspondesse, ainda que por breves instantes, à realidade.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.®️
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores