Impressões de um português na América
Escrevo estas palavras não apenas como observador da História açoriana, mas como Açoriano, nascido na Madalena do Pico, terra de mar, de lava, de vinhas e de homens e mulheres habituados a enfrentar a adversidade com dignidade. Trago comigo, onde quer que esteja, o orgulho de pertencer a um povo cuja grandeza nunca dependeu da dimensão das suas ilhas, mas da força do seu carácter. Há povos que fizeram História pela força das armas. Outros, pela riqueza dos seus impérios. Os Açorianos fizeram-na de forma diferente: através do trabalho, da coragem silenciosa e da extraordinária capacidade de transformar adversidades em oportunidades.
Perdidas na imensidão do Atlântico, as nove ilhas dos Açores nunca foram um fim do mundo. Foram, desde o século XV, o princípio de muitos mundos. Daquele arquipélago moldado pelo fogo dos vulcões e pela imprevisibilidade do oceano nasceu um povo resiliente, habituado a viver entre a esperança e a incerteza, onde a palavra dada valia tanto como um contrato e a honra de uma família era o seu património mais precioso.
A História dos Açores confunde-se com a própria História da expansão portuguesa. As ilhas tornaram-se escala das grandes navegações, ponto estratégico entre continentes e símbolo da vocação atlântica de Portugal.
Porém, a maior riqueza que os Açores ofereceram ao mundo nunca foi a sua localização geográfica. Foi o carácter dos seus habitantes.
Ao longo de séculos, milhares de Açorianos partiram para o Brasil, Estados Unidos da América, Canadá, Bermudas, Havai, Uruguai e tantos outros destinos. Não emigraram para procurar privilégios nem para viver da assistência alheia. Partiram porque acreditavam que o trabalho dignifica o Homem e que o futuro se constrói com sacrifício, disciplina e perseverança.
Onde chegaram, fundaram empresas, cultivaram terras, abriram escolas, ergueram igrejas, criaram associações, serviram nas forças armadas, participaram na vida pública e ajudaram a desenvolver comunidades inteiras. Tornaram-se agricultores, empresários, professores, cientistas, autarcas, militares e dirigentes, sempre com a mesma discrição que caracteriza quem prefere deixar obra feita a procurar reconhecimento.
Mas talvez o maior feito da diáspora açoriana tenha sido outro: conseguiu integrar-se plenamente nas sociedades que a acolheram sem perder a sua identidade. Continuou a falar português dentro de casa, preservou as Festas do Divino Espírito Santo, manteve vivas as filarmónicas, transmitiu aos filhos o respeito pela família, pela fé, pela liberdade e pelo trabalho. Demonstrou que a verdadeira integração nunca exige o abandono das raízes.
Num tempo em que tantas sociedades parecem valorizar o efémero em detrimento do permanente, os Açorianos continuam a recordar-nos uma verdade simples: nenhuma comunidade permanece forte quando esquece a sua História. A identidade não limita; fortalece. A tradição não impede o progresso; dá-lhe estabilidade. O patriotismo não exclui ninguém; apenas recorda de onde viemos para melhor sabermos para onde queremos ir.
Portugal tem, por vezes, dificuldade em reconhecer a dimensão desta herança.
Olha para a emigração como um fenómeno demográfico quando deveria olhá-la como um extraordinário activo estratégico. Poucos países possuem uma diáspora tão bem integrada, tão respeitada e simultaneamente tão fiel às suas origens como a açoriana.
Em cada continente existe um pouco dos Açores. Nas igrejas onde ainda se celebra o Espírito Santo. Nas sociedades recreativas. Nas filarmónicas. Nas empresas familiares construídas ao longo de gerações. Nos apelidos portugueses que continuam a honrar a memória dos seus antepassados. E, sobretudo, na ética de trabalho que tantas vezes fez dos Açorianos cidadãos respeitados muito para além das fronteiras nacionais.
As nove ilhas nunca foram apenas um território. São uma escola de carácter. Ensinaram sucessivas gerações que a liberdade exige responsabilidade, que a prosperidade nasce do esforço e que a dignidade humana não depende da riqueza material, mas da honestidade com que cada um conduz a sua vida.
Talvez seja por isso que, mesmo longe, nenhum Açoriano deixa verdadeiramente as suas ilhas. Quem nasce na Madalena do Pico, em Ponta Delgada, na Horta, em Angra do Heroísmo, em Santa Cruz das Flores ou em qualquer outra parcela daquele arquipélago leva consigo a memória do mar, o respeito pelos antepassados e uma ligação à terra que o tempo e a distância dificilmente conseguem apagar.
Num mundo marcado pela velocidade, pelo esquecimento e pela perda de referências, talvez os Açorianos tenham ainda uma das mais importantes lições para oferecer. A verdadeira grandeza não se mede pelo tamanho de um país, nem pelo número dos seus habitantes. Mede-se pela qualidade moral das pessoas que forma e pela marca que estas deixam nas sociedades onde vivem.
Os Açores são pequenos na geografia, mas imensos na História de Portugal. E enquanto existir um Açoriano que trabalhe com honra, cumpra a palavra dada, eduque os seus filhos no respeito pelos valores que recebeu e mantenha viva a memória da sua terra, continuará a existir um pedaço de Portugal espalhado pelo mundo.
Esse é, talvez, o maior legado do povo açoriano: provar que é possível partir sem abandonar a Pátria, prosperar sem esquecer as origens e ser cidadão do mundo permanecendo, para sempre, filho das nove ilhas do Atlântico.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores