Enaltecem-se as comunidades portuguesas, recordam-se as suas conquistas e repetem-se palavras de gratidão pela forma como dignificam Portugal no estrangeiro. Todavia, por detrás de cada história de sucesso existe uma pergunta incómoda: por que motivo tiveram tantos portugueses de abandonar o seu próprio País para encontrar oportunidades compatíveis com o seu talento, esforço e capacidade de trabalho?
De acordo com o relatório Emigração Portuguesa 2025, do Observatório da Emigração, estima-se que cerca de 65 mil portugueses tenham emigrado em 2024, menos cinco mil do que no ano anterior. Embora se tenha verificado uma ligeira diminuição, os dados confirmam a persistência de um fenómeno estrutural: dezenas de milhares de portugueses continuam a deixar o País todos os anos.
Não se trata, portanto, de um fenómeno pertencente ao passado, nem apenas de uma recordação das malas de cartão, dos navios para a América ou das travessias clandestinas dos Pirenéus. Portugal continua a ser um País de emigrantes em pleno século XXI.
Mudaram os destinos, as profissões e as qualificações, mas permaneceu a razão fundamental. Demasiados portugueses não encontram na sua própria terra as condições necessárias para construir uma vida digna, estável e verdadeiramente independente.
Actualmente, quem parte é, muitas vezes, jovem, qualificado e ambicioso. Portugal financia a sua educação, suporta uma parte substancial da sua formação e, quando chega o momento de essa pessoa contribuir para o desenvolvimento nacional, outra economia recolhe os benefícios. O País assume o custo da formação, enquanto o estrangeiro recebe o talento, o conhecimento e a capacidade produtiva.
Não se pode condenar quem parte. Todo o ser humano possui o direito e o dever de procurar melhores condições para si e para a sua família.O problema não reside na decisão do emigrante, mas no sistema que transforma a partida numa necessidade.
Portugal habituou-se a celebrar os emigrantes, mas raramente demonstra coragem para discutir as razões pelas quais continuam a partir.
Durante décadas, sucessivos governos prometeram crescimento, modernização e convergência com as economias mais desenvolvidas da Europa.
Porém, para uma parte considerável da população, os salários continuam baixos, a habitação tornou-se inacessível, a carga fiscal permanece excessiva e a burocracia dificulta a iniciativa individual.
Em Portugal, trabalhar mais nem sempre significa progredir. Criar uma empresa continua a ser uma prova de resistência administrativa. Contratar trabalhadores representa encargos consideráveis. Investir envolve licenças, pareceres, regulamentos e atrasos. Poupar é penalizado, produzir é tributado e prosperar é, demasiadas vezes, observado com desconfiança.
Uma sociedade que suspeita do sucesso acabará, inevitavelmente, por produzir menos riqueza, menos investimento e menos oportunidades.
Existe ainda um problema mais profundo: a fragilidade da cultura do mérito. Continuam a existir sectores nos quais o conhecimento pessoal vale mais do que a competência, a proximidade partidária prevalece sobre a capacidade e a obediência é recompensada com maior facilidade do que a independência.
Quando um jovem conclui os seus estudos e percebe que a progressão profissional depende menos do esforço do que dos contactos certos, começa naturalmente a procurar outro destino. Quando um empresário verifica que passa mais tempo a satisfazer exigências burocráticas do que a desenvolver a sua actividade, transfere o seu investimento. Quando um profissional competente recebe no estrangeiro várias vezes aquilo que lhe oferecem em Portugal, a saudade deixa de constituir motivo suficiente para permanecer.
A emigração representa, assim, uma espécie de referendo silencioso. Cada cidadão que parte declara, através da sua decisão, que deixou de acreditar que o sistema português lhe possa oferecer as condições necessárias para realizar o seu potencial.
Os responsáveis políticos costumam responder com programas de regresso, benefícios temporários e campanhas de sensibilização. Essas medidas podem auxiliar algumas pessoas, mas não resolvem o problema estrutural. Os portugueses não regressarão definitivamente apenas porque lhes é concedida uma vantagem fiscal transitória. Regressarão quando encontrarem estabilidade, salários competitivos, segurança, habitação acessível e uma Administração Pública que respeite o tempo, o trabalho e o dinheiro dos cidadãos.
Um País não pode depender exclusivamente do sentimentalismo para recuperar aqueles que perdeu. A saudade pode levar alguém a visitar Portugal, mas apenas a confiança no futuro poderá convencê-lo a regressar.
Emigrar deve ser uma escolha livre, motivada pela curiosidade, pela experiência ou pela ambição internacional
É igualmente contraditório proclamar a necessidade de atrair trabalhadores estrangeiros sem primeiro perguntar por que razão tantos trabalhadores portugueses continuam a sair. Portugal tem o direito de receber imigração legal, controlada e compatível com as suas necessidades económicas e sociais. Contudo, a entrada contínua de trabalhadores estrangeiros não pode servir para ocultar a incapacidade de reter os próprios cidadãos, nem para conservar artificialmente um modelo económico assente em remunerações reduzidas.
Uma economia verdadeiramente desenvolvida não compete através de salários baixos. Compete através da produtividade, da inovação, da qualificação, da responsabilidade e da criação de valor.
Portugal necessita de uma transformação que não se realizará através de novos discursos, observatórios ou comissões. Precisa de reduzir a burocracia, aliviar a tributação sobre o trabalho e o investimento, premiar o mérito, responsabilizar os dirigentes públicos e criar condições para que a iniciativa privada possa prosperar.
Necessita também de abandonar a ideia de que o Estado deve resolver todos os problemas da sociedade. O Estado deve garantir a justiça, a segurança, a educação, a saúde e condições de concorrência leal. Não deve sufocar os cidadãos através da dependência, da regulamentação excessiva e de uma máquina administrativa que cresce enquanto a população produtiva diminui.
Os portugueses demonstram diariamente, no estrangeiro, que não lhes faltam inteligência, disciplina, coragem ou capacidade de adaptação. As suas realizações provam que o problema nunca esteve no povo português. Está, em larga medida, nas condições que o próprio País oferece aos seus cidadãos.
A maior homenagem que Portugal pode prestar aos emigrantes não consiste em lhes dedicar discursos, cerimónias ou palavras de circunstância. Consiste em construir um País do qual ninguém seja obrigado a partir para alcançar uma vida melhor.
Emigrar deve ser uma escolha livre, motivada pela curiosidade, pela experiência ou pela ambição internacional. Nunca deveria representar a única alternativa para quem deseja trabalhar, constituir família e progredir através do seu próprio mérito.
Enquanto Portugal continuar a exportar os seus filhos mais preparados, produtivos e determinados, poderá celebrar as suas vitórias no estrangeiro. Mas não deverá esquecer que cada uma dessas vitórias representa também uma oportunidade que a Pátria não soube conservar.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores
Esta é uma coluna de opinião do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do jornal.