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Vivemos um tempo singular em que conceitos outrora graves e rigorosos se encontram hoje esvaziados pelo uso abusivo e pela aplicação leviana. Entre eles avulta o termo extremismo, frequentemente utilizado para qualificar tudo e qualquer afirmação de identidade nacional, de continuidade cultural ou de soberania política. Tal banalização não apenas empobrece o discurso público como compromete a clareza intelectual indispensável a uma sociedade verdadeiramente livre e madura.

César DePaço

Defender a identidade nacional não equivale a promover racismo. O racismo assenta na hierarquização dos seres humanos com base em critérios biológicos ou étnicos e conduz inevitavelmente à exclusão injusta e à negação da dignidade humana. A defesa da identidade nacional, pelo contrário, funda-se na preservação de uma herança histórica, linguística, cultural e institucional, construída ao longo de séculos por um povo concreto num espaço histórico determinado. Confundir deliberadamente estas realidades não constitui mero erro conceptual.
 

Representa uma grave distorção do debate cívico.


Um país não é uma ficção administrativa nem um simples espaço económico regulado por normas técnicas. Um país é, antes de tudo, uma comunidade histórica. É memória colectiva. É continuidade entre gerações. Em nações antigas como Portugal, esta verdade manifesta-se com particular evidência. A identidade portuguesa não surgiu de circunstâncias recentes nem se reduz a instrumentos jurídicos. Formou-se através da língua, da tradição, da fé, do direito, da literatura e de uma visão do mundo sedimentada ao longo do tempo. Preservar essa herança não implica rejeitar o outro. Implica, tão somente, recusar a renúncia a si próprio.

A experiência histórica dos United States oferece um ensinamento complementar. Trata-se de uma nação edificada por sucessivas vagas de imigração, mas unificada não pela diluição identitária, e sim por um forte patriotismo cívico. Quem chega é chamado a integrar-se numa ordem comum assente na primazia da lei, no respeito pelas instituições e na adesão a um conjunto definido de valores partilhados.
 

A diversidade não constitui ameaça quando existe um eixo moral e cultural que sustenta a comunidade política. O problema surge quando se exige aos povos que abdiquem da sua memória histórica em nome de uma concepção vaga e mal compreendida de tolerância.


Uma sociedade que se recusa a definir quem é e aquilo que valoriza não se torna mais justa nem mais aberta. Torna-se apenas mais vulnerável e mais instável. A defesa da identidade nacional não é um acto de exclusão. É um dever de responsabilidade perante os que nos precederam e perante aqueles a quem legaremos o futuro. Nunca defendi, nem defenderei, qualquer forma de discriminação racial. Defendo, sim, o direito dos povos a permanecerem reconhecíveis a si próprios. Defendo a soberania como expressão legítima da autodeterminação democrática.

Defendo a cultura como herança viva, transmitida e renovada, e não como objecto descartável sujeito às modas do momento. Se tais posições são hoje classificadas como extremas, talvez o verdadeiro sinal de alarme resida não em quem as sustenta, mas numa época que perdeu a capacidade de distinguir entre firmeza moral e intolerância. Uma democracia saudável exige pluralismo, mas exige também limites claros. Exige abertura, mas não amnésia colectiva. Exige acolhimento, mas não dissolução identitária.
 

A identidade nacional não constitui obstáculo à convivência civil. É, muitas vezes, a sua condição silenciosa e indispensável.


César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e CEO do Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores