Empresário vai ter 20% da Global e promete respeitar independência editorial. Foi "crucificado" por ter doado 30 mil euros ao Chega, mas também doou a PSD, CDS e PS e "ninguém se incomodou", diz.
O empresário César de Paço vai passar a ser acionista do Global Media Group, proprietário do Diário de Notícias, no âmbito de um acordo que foi anunciado pela administração da empresa, na sexta-feira. No âmbito deste memorando de entendimento, César do Paço vai passar a deter uma participação de 20% na Global Media, com o grupo Bel, de Marco Galinha, a permanecer o principal acionista. Em entrevista ao DN, o empresário açoriano, que fundou nos Estados Unidos um grupo líder na área dos suplementos nutricionais (ver perfil), diz que quer contribuir para o jornalismo livre e admite ajudar a levar o DN para o país onde vive há três décadas.
César do Paço apoiou André Ventura nas últimas presidenciais e assume-se como um homem com "valores de direita". Porém, desmente as notícias que o apontaram como "principal financiador do Chega" e diz que os donativos que concedeu ao partido, juntamente com a esposa - na ordem dos 30 mil euros, ao longo de vários anos - foram acompanhados de outros que atribuiu a partidos como o PSD, o PS e o CDS
Entrevista
Em primeiro lugar, porque acredito no projeto que me foi apresentado por um amigo. Além disso, a informação sempre foi uma área que me cativou. Acredito que, com o meu conhecimento, experiência e visão empresarial, poderei constituir uma mais-valia para a Global Media.
Repare, não são apenas os media que atravessam um período difícil e de transição. As mudanças são transversais a toda a sociedade e, naturalmente, também às diversas actividades profissionais.
Sempre fui um homem de desafios, e essa é uma característica que me define. Acredito que existe espaço no mercado para diferentes tecnologias e diferentes formas de comunicar. O verdadeiro desafio está em saber fazer chegar a informação ao leitor, com rigor, qualidade e credibilidade, independentemente do formato utilizado.
A designação de “principal financiador do Chega” foi criada por alguns órgãos de comunicação social e não corresponde à verdade. Aliás, nem sei se existe alguém que possa, com rigor, ser qualificado dessa forma.
Os donativos que efectuei foram sempre realizados em cumprimento da legislação em vigor, de forma transparente e devidamente assumida. Nunca escondi os meus donativos a partidos políticos, incluindo ao Chega.
Conheço os portugueses e reconheço a sua inteligência. Não acredito que notícias que não correspondem à verdade possam afectar a credibilidade do trabalho de dezenas de profissionais sérios, nem a independência de um jornal com a história, responsabilidade e prestígio do Diário de Notícias.
Sim.
Ao longo da minha vida, fiz donativos a diversos partidos, tanto de esquerda como de direita. Nos Estados Unidos, essa prática é absolutamente normal e faz parte da participação cívica de muitos cidadãos.
Em Portugal, curiosamente, apenas os donativos que fiz ao Chega parecem ter suscitado perseguição e crucificação pública na comunicação social. Outros donativos, feitos a partidos de diferentes orientações políticas, nunca mereceram igual atenção.
Ao longo dos anos, fiz donativos ao Chega, ao PS, ao CDS, ao PSD e ao Bloco de Esquerda. No caso deste último, embora o partido tenha comunicado ao Expresso, em 31 de Janeiro de 2025, que recusava o referido donativo, a verdade é que, até à presente data, o mesmo nunca me foi reembolsado. [Nota: o Bloco de Esquerda diz que não chegou a receber o donativo e que este foi “bloqueado"].
Durante muito tempo, ninguém se incomodou com estes factos
Em relação aos donativos ao Chega, importa esclarecer que, entre 2020 e a presente data, eu a minha esposa doámos, em conjunto, pouco mais de 30 mil euros. Este valor, sendo naturalmente uma decisão pessoal e legítima, não faz de mim, nem da minha esposa, os principais financiadores do que quer que seja. Qualquer tentativa de apresentar essa realidade de forma diferente será, no mínimo, desproporcionada e poderá contribuir para uma perceção pública errada dos factos.
Fui criado e educado numa família de direita e conservadora. Foram esses os valores que os meus progenitores me transmitiram e que hoje procuro transmitir às minhas filhas.
Isso não significa, de forma alguma, que seja preconceituoso. Nunca fui. Acredito na democracia, na liberdade, na responsabilidade individual e na pluralidade de pensamento. Também acredito que a democracia tem um custo e que cabe aos cidadãos suportar esse custo, dentro da lei, com transparência e sentido cívico.
A existência de partidos políticos diferentes é essencial para a robustez da nossa democracia. Foi nesse espírito que fiz donativos. Nunca tive interesse em cargos políticos, e a prova disso é que nunca aceitei convites que me foram dirigidos nesse sentido.
Prefiro ser um homem livre, com a liberdade de pensar, falar e agir de acordo com a minha consciência, sem estar preso a cargos, compromissos partidários ou condicionamentos políticos.
A minha acção cívica vai muito além da política. Nos Estados Unidos, apoio de forma significativa as forças de segurança, em vários estados e junto de diversos departamentos de polícia. Em Portugal, ofereci dois canídeos à GNR e ajudei várias corporações de bombeiros voluntários, de norte a sul do país, com equipamentos de protecção individual, ambulâncias, veículos de combate a incêndios e outros meios necessários.
Também apoiei centros de recolha animal, o Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, iniciativas de distribuição alimentar aos mais carenciados e apoio a pessoas sem abrigo na cidade de Lisboa.
Apesar de tudo isto, parece que o meu maior crime foi ter feito donativos ao Chega. Ainda assim, nada me impedirá de continuar a apoiar as causas em que acredito e com as quais me identifico, naturalmente após a devida análise e triagem.
A minha mensagem é de respeito e confiança. Só posso desejar que continuem o excelente trabalho que tem sido realizado ao longo dos anos, contribuindo para manter a qualidade, o prestígio e a dignidade desta grande instituição.
Da minha parte, posso assegurar que tudo farei, dentro daquilo que estiver ao meu alcance, para ajudar nesse processo. Acredito no trabalho de equipa, no profissionalismo e na responsabilidade de cada um.
Seria, seguramente, um mundo muito diferente e muito mais pobre. O acesso a uma informação livre, independente e responsável é essencial para a construção de uma sociedade melhor.
O jornalismo livre combate a desinformação, fortalece a democracia, protege a liberdade e promove a responsabilização. Estes são pilares fundamentais de uma sociedade transparente.
Uma sociedade sem informação livre torna-se uma sociedade vulnerável, facilmente condicionada por interesses instalados, pressões externas e lobbies de toda a natureza.
César do Paço com Marco Galinha, presidente do Grupo BEL (principal acionista da Global Media), durante um encontro no International Club of Portugal (ICPT).
Disse que acredita que pode ser uma mais valia para o grupo. Conhece bem o mercado norte-americano e a diáspora portuguesa nos Estados Unidos. A sua entrada pode ajudar a internacionalizar a marca DN para o mercado norte-americano, nomeadamente junto da nossa diáspora?
Acredito que a minha entrada no grupo poderá constituir uma mais valia, sobretudo pela experiência empresarial que adquiri ao longo de várias décadas, pela minha vivência no mercado norte-americano e pelo conhecimento directo que tenho da comunidade portuguesa residente nos Estados Unidos.
Os Estados Unidos têm quase dez milhões de quilómetros quadrados e aproximadamente trezentos e cinquenta milhões de habitantes. Trata-se, portanto, de um território vastíssimo, com uma população muito dispersa e realidades regionais muito diferentes.
A comunidade portuguesa encontra-se igualmente distribuída por diversas zonas do país, embora existam cidades e regiões onde a sua presença é particularmente significativa. Ao longo dos anos, foram sendo criados, no seio dessas comunidades, vários órgãos de comunicação social locais, que têm procurado corresponder às necessidades informativas, culturais e identitárias da diáspora portuguesa.
Por essa razão, entendo que qualquer eventual projecto de internacionalização da marca DN para o mercado norte-americano teria de ser estudado com prudência, rigor e sentido estratégico. Não se trata de uma tarefa simples. O mercado é altamente competitivo, existem inúmeros títulos, múltiplas plataformas digitais e hábitos de consumo de informação muito diversificados.
Ainda assim, acredito que existe uma ligação emocional, cultural e histórica entre Portugal e as suas comunidades espalhadas pelo mundo. Se essa ligação for trabalhada com inteligência, profissionalismo e respeito pela realidade local, poderá haver espaço para aproximar uma marca histórica como o Diário de Notícias da diáspora portuguesa nos Estados Unidos. Mas, neste momento, prefiro não adiantar conclusões definitivas sobre essa matéria.
Sou, e sempre fui, a favor de uma justiça célere, justa, independente e transparente. O que não posso aceitar é que qualquer órgão do sistema judicial actue de forma persecutória, selectiva ou fundada em narrativas frágeis, sem o devido respeito pela verdade material e pelos direitos fundamentais de qualquer cidadão.
Todo este processo, na minha perspectiva, assenta em falácias, interpretações subjectivas e entendimentos muito pessoais, que o tornam juridicamente frágil e humanamente injusto.
As denúncias tiveram origem num antigo colaborador meu, que nunca aceitou o facto de ter sido dispensado da empresa. Inconformado com essa decisão, dirigiu-se à Polícia Judiciária para apresentar a sua própria narrativa dos factos, e o Ministério Público deu seguimento ao que lhe foi transmitido.
Importa sublinhar que, em Cabo Verde, o processo foi arquivado por falta de fundamento e de prova. Ainda assim, em Portugal, e num momento muito específico, voltou a surgir na comunicação social a notícia da abertura de um processo, criando um efeito público evidente e profundamente lesivo do meu bom nome.
Na minha opinião, tudo isto teve uma finalidade clara: atingir a minha reputação pessoal e, por arrastamento, criar um aproveitamento político ao tentarem ligar-me ao Chega.
Não considero aceitável, nem compreensível, que a Polícia Judiciária esteja nas instalações da minha empresa a executar um mandado de busca e, praticamente em simultâneo, essa informação já esteja a circular nas televisões. Ou estamos perante fuga de informação e eventual violação do segredo de justiça, o que também constitui matéria grave, ou então teremos de perguntar se, em certos casos, a justiça em Portugal é aplicada de forma selectiva.
O que pretendo com este processo é o apuramento rigoroso de todos estes factos. Pretendo levar esta matéria aos tribunais norte-americanos porque entendo que foram praticados actos que afectaram gravemente a minha honra, a minha reputação, a minha família e a minha actividade empresarial.
A partir de determinado momento, passei a ter um objectivo central: provar a minha inocência e defender o meu bom nome. O bom nome é o bem mais precioso que possuo e é também o legado moral que quero deixar às minhas filhas.
Quero que, um dia, as minhas filhas saibam que o pai foi um homem de trabalho, um filantropo de coração, alguém que ajudou muita gente de bem e que nunca pactuou com o crime, com criminosos ou com qualquer conduta indigna.
César Manuel Cardoso Matos de Paço nasceu na Madalena, Ilha do Pico, em 1965, pelo facto de, à época, o pai "se encontrar a chefiar as duas Repartições de Finanças da ilha, a da Madalena e a de São Roque".
O seu percurso foi construído em diferentes geografias e em contextos muito diversos. Entre 1990 e 1992, trabalhou para o Governo português em Macau, na Direcção dos Serviços de Turismo, no Departamento de Formação, como assessor pedagógico na Escola de Hotelaria. "Essa experiência permitiu-me contactar com uma realidade institucional muito própria, marcada pela exigência administrativa, pela formação profissional, pela disciplina, pela qualidade do serviço e pelo contacto com uma sociedade onde a tradição portuguesa se cruzava com a dimensão asiática", diz.
Entre 1992 e 1994, César do Paço foi professor de Psicologia e de Inglês na Tailândia, em Bangkok e em Chiang Mai, no que descreve como uma "experiência particularmente enriquecedora, não apenas do ponto de vista profissional, mas também humano e cultural".
Em 1994, aos 29 anos, muda-se para os Estados Unidos, a pedido da mãe, que já lá vivia. "Foi nos Estados Unidos que encontrei um mercado exigente, competitivo e profundamente marcado pela valorização do trabalho, da iniciativa individual, da persistência e da capacidade de cumprir a palavra dada", frisa César de Paço.
Em 1997, criou o seu primeiro negócio que, alguns anos mais tarde, em 2001, acabaria por se transformar na Summit Nutritionals International Inc., empresa norte-americana especializada no desenvolvimento, produção e comercialização de matérias-primas destinadas às indústrias nutricional, nutracêutica, dos suplementos alimentares e farmacêutica, servindo tanto o sector humano como o sector animal. A Summit Nutritionals International Inc. tornou-se especialmente associada ao Sulfato de Condroitina Droi-Kon. Os dados de faturação são reservados, mas a Summit Nutritionals International Inc. tem sido referida nos sites especializados como a empresa líder no seu segmento nos Estados Unidos.
César do Paço conta que a ideia de fundar e desenvolver a Summit Nutritionals surgiu da "identificação de uma necessidade concreta" no mercado das matérias-primas destinadas aos sectores nutracêutico, dos suplementos alimentares, farmacêutico, humano e animal. "Percebi que havia espaço para uma empresa que não se limitasse a transaccionar produto, mas que procurasse afirmar-se pela qualidade, pela responsabilidade e pela consistência técnica".
Além do seu percurso empresarial, César do Paço foi cônsul honorário de Portugal na Flórida, entre 2014 e 2020, altura em que se incompatibilizou com o então embaixador português nos Estados Unidos.
Fonte: Diário de Notícias