Há palavras que servem apenas para nomear as coisas. Outras, porém, parecem ter sido criadas para guardar dentro de si a alma de um povo. Saudade é uma dessas palavras. Não se limita a exprimir tristeza, ausência ou recordação. É um sentimento mais antigo, mais profundo e mais nobre. É memória, amor, fidelidade, distância e esperança. É a presença espiritual daquilo que os olhos já não podem contemplar, mas que o coração se recusa a esquecer.
Talvez nenhuma outra palavra exprima tão perfeitamente a maneira portuguesa de sentir a vida. Na saudade cabem o murmúrio do mar, o sino da igreja da aldeia, a casa paterna, a voz da mãe, o conselho do pai, as mãos cansadas dos avós, o cheiro do pão acabado de cozer e a lembrança daqueles que partiram antes de nós. Cabe a infância que não regressa, a terra que ficou distante e o tempo em que a palavra dada ainda valia mais do que qualquer documento assinado.
A saudade é, por isso, muito mais do que um sentimento. É uma herança espiritual.
O Português leva consigo a saudade como leva o nome de família, a fé dos seus antepassados e o amor pela terra onde nasceu. Pode atravessar oceanos, aprender outras línguas, conhecer outros povos e construir uma vida próspera em terras longínquas. Pode alcançar fortuna, reconhecimento e posição. Contudo, haverá sempre uma parte da sua alma que permaneceu junto à porta da casa onde cresceu, à sombra da igreja onde foi baptizado ou diante do mar que primeiro lhe ensinou a grandeza e a pequenez do homem.
O emigrante compreende esta verdade melhor do que ninguém. Parte porque a necessidade ou a ambição legítima o chamam. Parte com coragem, frequentemente com pouco dinheiro, mas levando consigo a educação recebida no lar, o respeito pelo trabalho, o temor de Deus e a esperança de proporcionar uma vida melhor à sua família.
Trabalha quando outros descansam. Economiza quando outros desperdiçam. Sacrifica o presente para edificar o futuro. E, mesmo quando vence, nunca esquece inteiramente o lugar de onde veio.
Conheço bem essa condição. Resido nos EUA há mais de três décadas. Foi nesta grande Nação que construí uma parte importante da minha vida, pelo que lhe devo gratidão, respeito e lealdade. Todavia, nunca deixei de ser Português. O passar dos anos não enfraqueceu a ligação à minha Pátria. Pelo contrário, tornou mais nítido o valor das minhas origens.
Nasci na ilha do Pico, nos Açores, terra levantada entre o oceano e o céu, sob a vigilância majestosa da montanha mais alta de Portugal. Quem nasce numa ilha aprende desde cedo que o mar tanto pode separar como unir. Aprende que cada partida contém uma promessa e que cada regresso traz consigo uma emoção que dificilmente pode ser explicada por palavras.
Talvez seja por isso que a saudade se encontra tão profundamente gravada na alma açoriana. Durante gerações, os nossos homens e mulheres despediram-se das suas famílias e lançaram-se ao desconhecido. Muitos partiram sem saber quando regressariam. Alguns nunca regressaram. Mas levaram Portugal consigo, na maneira de trabalhar, de rezar, de constituir família, de respeitar os mais velhos e de honrar os compromissos assumidos.
Não transportaram a Pátria nas malas. Levaram-na gravada no carácter.
A saudade não é fraqueza. Não é uma enfermidade da alma, nem um convite à resignação. É, antes de tudo, uma prova de fidelidade. Só sente verdadeira saudade quem amou profundamente, quem pertenceu verdadeiramente e quem reconhece que existem afectos, princípios e lugares que nenhum progresso material pode substituir.
Num tempo em que quase tudo se tornou provisório, a saudade recorda-nos aquilo que deve permanecer.
Vivemos numa época em que se pretende frequentemente apresentar a tradição como atraso, a autoridade como opressão, a disciplina como crueldade, a fé como ignorância e o patriotismo como motivo de embaraço. A família, que durante séculos constituiu o fundamento moral da sociedade, é submetida a incessantes ataques. A palavra dada perde valor. O respeito pelos mais velhos desaparece. Os deveres são esquecidos, enquanto os direitos são proclamados sem medida e sem responsabilidade.
Perante esta desordem moral, a saudade pode representar uma forma silenciosa de resistência.
Um povo que perde a memória deixa de compreender o presente
Sentir saudade de um Portugal mais digno, mais respeitador, mais disciplinado e mais consciente da sua História não significa rejeitar o futuro. Significa desejar que o futuro não seja construído sobre as ruínas de tudo aquilo que fomos. Uma árvore que despreza as próprias raízes pode conservar as folhas durante algum tempo, mas acabará inevitavelmente por secar.
Assim sucede também com as Nações. Portugal não nasceu ontem. Foi edificado pelo sacrifício de gerações, pela coragem de navegadores, soldados, missionários, lavradores, pescadores, mães e pais de família. Foi levado aos quatro cantos do mundo por homens que enfrentaram o mar sem as certezas e comodidades do nosso tempo. Devemos-lhes não apenas respeito, mas gratidão.
Um povo que perde a memória deixa de compreender o presente e torna-se incapaz de merecer o futuro. Quando uma Nação se envergonha da sua História, despreza os seus símbolos, abandona a sua língua e permite que outros lhe definam a identidade, começa a desaparecer, mesmo que as suas fronteiras permaneçam desenhadas nos mapas.
A saudade protege-nos contra esse desaparecimento.
Portugal não existe apenas no território continental e nas ilhas. Existe em cada comunidade portuguesa espalhada pelo mundo. Existe em cada emigrante que fala português aos filhos. Existe na mãe que reza uma oração aprendida com a avó. Existe na bandeira colocada com orgulho diante de uma casa distante. Existe na mesa onde não faltam os sabores da nossa terra. Existe no homem que, depois de uma vida inteira no estrangeiro, continua a dizer com convicção: sou Português.
A Pátria não é apenas o solo que pisamos. É a memória que transportamos, o sangue que nos liga, a língua em que rezamos e o conjunto de deveres que aceitamos perante aqueles que vieram antes de nós e aqueles que virão depois.
Por vezes, é necessário viver longe para compreender verdadeiramente o valor daquilo que ficou para trás. A distância apaga os pormenores sem importância, mas torna essenciais as lembranças que definem quem somos. O emigrante pode possuir duas casas, respeitar duas bandeiras e amar duas Nações, sem jamais confundir o lugar onde vive com a terra onde começaram as suas raízes.
A saudade não nos manda regressar ao passado. Ensina-nos a não chegar vazios ao futuro.
É a chama que permanece acesa quando tudo o mais parece distante. É a voz dos que já partiram. É o silêncio da casa antiga. É o mar contemplado de longe. É a infância que continua a caminhar ao nosso lado, embora já não possa ser alcançada. É Portugal transformado em sentimento.
Enquanto existir um Português que conserve no coração a memória da sua terra, Portugal nunca estará verdadeiramente ausente. Enquanto houver um filho de Portugal que ensine aos seus descendentes a língua, a História, a fé, o respeito pela família e o amor pela Pátria, a nossa identidade não desaparecerá.
A saudade não é apenas a dor causada por uma ausência.
É o amor que permaneceu depois da partida.
É a fidelidade que resistiu ao tempo.
É a raiz que atravessou o oceano.
É a certeza de que certos lugares, certas pessoas e certos valores podem deixar de estar diante dos nossos olhos, mas jamais deixarão de viver dentro de nós.
E talvez seja essa a mais bela definição de Portugal.
César DePaço
Empresário e filantropo
Cônsul ad honorem de Portugal entre 2014 e 2020
Fundador e Director Executivo da Summit Nutritionals International Inc.
Fundador e Presidente do Conselho de Administração da Fundação DePaço
Defensor incondicional das forças de segurança e dos princípios conservadores